quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

PÁSSAROS MATUTINOS




Estes seres alados
são partes das manhãs
encrustradas de canto

Livres quais anjos
em jardins de vida
agraciados por orvalhos
de auroras imorredoiras
que nascem no meu coração
e descansam no ser infinito


São etéreos figurantes
benfazejos
peças do intrincado
balé dos mundos
dos quais em estonteante
canto
vos fazeis representar


Geovani F. dos Santos
(15/02/2012)

TEMPO INFINITO




Ali parado em meu tempo infinito.
Anacrônico em infinitesimal 
devaneio  percebendo cores e espaços
e sabores mais gentis.

Me lanço ao sonho
num sorriso juvenil
para desvendar a alma
de um poeta.

Ato criativo?
Estro?
Não, apenas ternura! 

Deixo pois minhas idéias
em recipientes translúcidos.
Que sejam lidas ao rufar dos tambores,
nas plácidas manhãs irmãs de verão,
nos folguedos mais ligeiros,
nas horas impensadas,
nos lagos mais profundos,
nas ondas em delírio,
em som de poesia  e nada mais.

Quando pois ouvirdes o som,
deixeis vossa vaidade despida,
vossos ataúdes de orgulho,
vossas penumbras pálidas,
vossos sonhos desfeitos,
para serdes meus conservos no reino das canções.
De onde ninguém vive sem apreciar
o néctar de célicas melodias.


Geovani F.dos Santos
(15/02/2012)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O TERROR EUROPEU




Quem se interesse pela literatura de terror sabe que uma das técnicas expressivas mais usadas é a produção de um efeito de contraste brutal entre expectativas e realidades. Alguém caminha por uma rua familiar e, subitamente, descobre que o lugar antes conhecido se transforma num labirinto perigoso e hostil. No domingo passado, foram as mãos de civis gregos a repetir o gesto dos soldados de Xerxes, incendiando alguns dos edifícios mais belos do centro de Atenas, no meio de uma verdadeira batalha urbana.

No Parlamento, Evangelos Venizelos explicava a necessidade de aprovar mais um pacote de austeridade nos seguintes termos: "A questão não é a de saber se alguns salários e pensões vão ser reduzidos, mas sim a de saber se esses salários e pensões reduzidos poderão ser pagos..." Em Espanha foi aprovada uma nova lei laboral que propõe brutais reduções salariais, conferindo ao patronato um poder discricionário que só vai aumentar a belicosidade social.

Em Portugal, mesmo com as promessas paternalistas de Schäuble, o sofrimento social aumenta todos os dias. A narrativa europeia foi, durante mais de meio século, a da paz sob o império da lei, do progresso social, da convergência económica. Como num filme de terror, a moeda comum tornou-se uma masmorra onde manda a força nua, perante o sono profundo das leis e instituições comunitárias. Cresce a desigualdade entre nações, e, dentro destas, entre as classes sociais. A Europa move-se, mas para trás. Parece que regressámos aos tempos de smog e pobreza dos personagens de Charles Dickens. Quem trouxer Oliver Twist para a Europa do século XXI levará consigo também Marx e Bakunine. Por este caminho, a Europa terá um trágico passado à sua frente.



Artigo de Viriato Soromeno Marques publicado no Diário de Notícias de 
Portugal






Meu comentário: A crise grega ameaça o equilíbrio e a existência da Comunidade  Européia. O atual caos que se estabeleceu demonstra a fragilidade dos pilares sobre os quais a Europa cimentou suas estruturas políticas e econômicas. O futuro róseo que era decantado pelo bloco tornou-se pálido ante a expectativa de uma quebradeira generalizada e sem precedentes que levará todo o conjunto monetário a amargar seus piores pesadelos possíveis, num cenário de miséria e recessão inimagináveis. Ninguém pode prever o que acontecerá. Uma coisa é certa, o modo de vida das famílias europeias baseado na sociedade de bem-estar e em gastanças exorbitantes patrocinadas por seus governos chegou ao fim. A farra acabou. O que resta agora é catar os pedaços e reconstruir um novo modelo econômico responsável e mais humano em sua distribuição de renda, que contemple os trabalhadores e menos favorecidos se isso for verdadeiramente possível. O que eu acho muito  difícil de acontecer nesta sociedade globalizada dominada por uma elite que concentra para o seu bel prazer todo o dinheiro do planeta.


Acontece que o monstro já está às soltas  e faz suas vítimas com  ferocidade mortal. O quadro de desesperança é tão grande, que trabalhadores desesperados com a diminuição de seus salários ou mesmo com as possíveis demissões que estão  a caminho fizeram das ruas gregas uma verdadeira zona de guerra, com enfrentamentos, incêndios e muita pancadaria. Em nome da salvação da pátria sacrifícios serão exigidos. O povo grego sentirá na carne as consequências do pacote aprovado pelo parlamento. Se a Grécia não conseguir estancar a enchente ou mesmo deixar a zona do Euro como já se especulou antes, é imprevisível o que acontecerá. Insustentáveis as coisas já estão, só resta saber se tornarão um pesadelo terrificante para uma Europa já em transe.















TRANSES



Nasceu em um sonho
qual flor em jardim
Se deu aos fracos e pobres
num afã de cordialidades
Galgou todas as dores do mundo
com voz de carpinteiro

Ei-lo em revezes
transtornado em dores e tentação.
No jardim de belezas encontrou angústias
para, enfim, tomá-las em cálice de fel




Geovani F. dos Santos (14/02/2012)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

T.S. Eliot, ou o cristão no circo pagão



Em Ensaios Escolhidos, podemos encontrar um texto muito atual de T.S. Eliot: “A ideia de uma sociedade cristã”. Este ensaio de 1939 é um ótimo buraco da fechadura para observarmos os dilemas do cristão na sociedade de 2011.
Eliot dizia que o cristão tem de tentar influenciar a sociedade do seu país a um nível pré-político. Ou seja, não estamos perante a defesa de um Estado cristão, mas ante a defesa de uma sociedade cristã, uma sociedade com o seu centro vital amarrado a valores cristãos. Eliot, aliás, afirmava que é mais importante a existência de uma sociedade cristã do que a existência de governantes cristãos. Porquê? Numa sociedade cristã, um político pagão não consegue impor leis anti-cristãs, porque o tecido social não o permite. Ao invés, numa sociedade pós-cristã e pagã, um governo de políticos cristãos já não tem hipótese, pois está rodeado por uma sociedade que despreza o moral cristã.
Portanto, Eliot afirmava que um cristão deve actuar na sua sociedade, porque o cristianismo é a última linha de resistência contra o mau governo, contra o “governo totalitário pagão”. Tudo bem? Tudo mal. Eliot já tinha o problema que aflige os cristãos europeus de hoje: a sua sociedade já era pagã. Eliot queixava-se da ausência de fé nas massas, e, como se sabe, esta queixa é recorrente na atualidade. Em 2011, tal como em 1939, a sociedade já não é cristã, logo, o Estado projecta-se através de leis que ferem a ética cristã. Sim, tal como no tempo de Eliot, ainda existe uma “Comunidade de Cristãos”, mas já não existe uma “Comunidade Cristã”. O processo de descristianização das sociedade europeias, que estava a atingir a maturidade no tempo de Eliot, é hoje uma realidade mais do que madura. Maduríssima. Há muito que não existe um ethos cristão a limitar a ação do Estado e dos governantes.
Ora, quer em 1939, quer neste século XXI, o afastamento das sociedades em relação ao ethos cristão não se deveu apenas às investidas das hordas pagãs. A preguiça, digamos assim, dos cristãos também deve ser considerada enquanto causa da decadência da fé.
(Adaptado de um texto de Henrique Raposo, Expresso)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O HOMEM E A CRUZ






Andou por estas praias como nós.
De vestes compridas e olhar profundo,
divisando em relances o fulgor da eternidade.

Suas faces suaves
de ternura lavrada,
destilavam o mel de profundas verdades
que seriam incrustadas nos olhos dos corações dos homens
em dormência.

Não tinha ambições,
tampouco pendores ambíguos em seu peito.
Seu único alvo talhado n’alma,
seria salvar os homens
no destino da cruz.

Ei-lo a caminho!
Posso ver serpentes e escorpiões lhe espreitar!
Mil criaturas do mal a marcar-lhe
o passo

Ele, mansueto, persegue aquela cena
imposta por pena eterna, dizendo:
O Pai assim decreta:
Que venha a cruz!


sábado, 11 de fevereiro de 2012

MIL SÓIS



No brilho de  teus sóis armo meus versos
num arfar de delícias incontidas
Quais manhãs diáfanas de primavera
quando os pássaros doiram de vida os prados alcantis
num assomo de mil gorjeios

O alvor de tua candura
assaz me envolve
canções angélicas entoam-se aqui
ergo-me a ouvi-las
são ensaios
das melodias do porvir


Teus  jardins luzidios se entrelaçam
num amalgama de eternidade e placidez
que se me dará a sentir aromas
das flores que cintilam além... 

Por Geovani F. dos Santos (11/02/2012)