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domingo, 29 de novembro de 2015

Crise entre Moscou e Ancara exige negociação

A derruba da de um caça russo SU-24 pela Força Aérea da Turquia, no início da semana, foi mais que um incidente diplomático a realçar a complexa realidade geopolítica do Oriente Médio. A ação mostra que a região é hoje a maior ameaça à paz mundial, devido a conflitos de interesses em escalas local, regional e global. Segundo a Turquia, o jato russo invadiu o espaço aéreo turco na fronteira com a Síria e foi alertado dez vezes antes de ser abatido. Moscou contesta a versão, afirmando que seus pilotos voavam em território sírio.


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Seja como for, Moscou não pode alegar que foi pego de surpresa. Desde que a Rússia iniciou os bombardeios na Síria, há dois meses, inúmeros foram os alertas da coalizão liderada pelos EUA que luta contra o Estado Islâmico (ISIS): os ataques russos poderiam gerar este tipo de incidente. O mesmo alerta foi feito pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Além da defesa de seu território, Ancara tem outras razões para retaliar, uma vez que boa parte dos insurgentes sírios sob bombardeio possui laços étnicos com os turcos.

Apesar da retórica contra o terror, a Rússia vem priorizando alvos rebeldes sírios em vez dos extremistas do ISIS, mesmo após o grupo assumir a derrubada de um Airbus da companhia russa Metrojet no Sinai, no fim de outubro, e os atentados de Paris, no último dia 13. Isso se explica não só pela aliança estratégica entre Vladimir Putin e o ditador sírio, Bashar al-Assad, mas também pelos vínculos que Moscou mantém com Teerã. Assad, alauita, um sub-ramo do xiismo, tem o apoio dos aiatolás xiitas do Irã e do grupo libanês Hezbollah.

Em retaliação à derrubada de seu caça, Moscou adotou sanções contra Damasco. Convênios comerciais, tecnológicos e culturais foram suspensos. Além disso, 39 executivos turcos, em viagem de negócios, foram detidos em Moscou na quarta-feira por terem entrado no país com vistos de turismo. O primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, vai anunciar hoje um pacote de sanções econômicas.

Por trás dessas escaramuças, escondem-se estratégias que tornam a guerra civil síria ainda mais um inferno sem fim, tendo como consequência a crise humanitária dos refugiados em êxodo para a Europa. Tanto Rússia como Turquia têm ambições de se tornarem atores regionais influentes, qualquer que seja o desfecho dos conflitos na região, e a sorte de Assad. É bom que comecem por demonstrar que estão à altura da tarefa, buscando uma solução diplomática, que permita a todos se concentrar na luta contra o inimigo comum: o Estado Islâmico.


Fonte: O Globo

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

EM ROTA DE COLISÂO


Derrubada de avião russo pela Turquia abre crise e dificulta entendimento sobre a Síria


HENRIQUE GOMES BATISTA Correspondente








WASHINGTON- “Uma punhalada nas costas que terá consequências graves”. Com essas palavras, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, classificou a derrubada de um avião militar do seu país por caças turcos na fronteira da Turquia com a Síria, ontem, na primeira vez em que uma aeronave russa foi abatida por um país-membro da Otan desde a Guerra da Coreia, nos anos 1950. O incidente aumentou as tensões entre as duas nações — já altas desde o início da intervenção russa na Síria, em setembro — e também entre o Kremlin e a Aliança Atlântica. Otan e Moscou se estranham desde 2014 após a anexação da Península da Crimeia pela Rússia, acusada também de intervir na revolta separatista no Leste da Ucrânia. A derrubada do avião gerou troca de acusações entre Moscou e Ancara, dificultando as chances de uma resolução diplomática para o conflito sírio, atualmente em seu quinto ano.

Imagens do bombardeiro Sukhoi Su-24 em chamas foram exibidas pela TV turca, enquanto o governo afirmava que o avião fora derrubado depois de violar o espaço aéreo da Turquia, mesmo após ser alertado pelas autoridades. Segundo o governo turco, foram dez alertas em cinco minutos, antes que o avião fosse atingido.

— Nunca toleraremos crimes como os que foram cometidos hoje (ontem) — reagiu Putin, que atribuiu a derrubada do avião a “cúmplices do terrorismo”. — Isso foi além da luta normal contra os terroristas. Nossos pilotos e nosso avião não ameaçaram a Turquia em momento algum, e isto está claro.

Na Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan afirmou que a derrubada do avião estava de acordo com as regras adotadas em 2012, depois que um caça turco foi derrubado na Síria, e alertou que “todos deveriam respeitar o direito da Turquia de defender suas fronteiras”.

— A razão pela qual incidentes piores não aconteceram no passado é o temperamento calmo da Turquia — declarou o presidente, ao alegar que não fora a primeira violação do espaço aéreo turco por aeronaves da Rússia.

O Conselho do Atlântico Norte, órgão político da Otan, discutiu a crise numa reunião extraordinária. Após o encontro, o secretário-geral da aliança, Jens Stoltenberg, afirmou que buscará aprofundar o diálogo entre Moscou e Ancara, e pediu a ambos os lados que evitassem uma escalada das tensões.

Horas após a queda do avião, o tenente-general Sergei Rudskoy, porta-voz das Forças Armadas russas, afirmou que os pilotos conseguiram ejetar-se, mas um deles morreu fuzilado ainda no ar, por rebeldes em terra, quando desciam de paraquedas. O paradeiro do segundo piloto é desconhecido. Um helicóptero militar enviado para o resgate foi atingido por foguetes, e fez um pouso de segurança próximo à fronteira. Um fuzileiro morreu no ataque.

OBAMA PEDE ‘PAPEL CONSTRUTIVO’ AO KREMLIN

Na Casa Branca, os presidentes François Hollande, da França, e Barack Obama, dos EUA, anunciaram ontem que vão trabalhar juntos contra o Estado Islâmico (EI), pedindo ainda mais atuação da União Europeia contra o grupo. Em entrevista coletiva, não anunciaram medidas concretas, mas pediram uma mudança de postura da Rússia. Obama afirmou que Moscou não deve aumentar a tensão na região, e que a Rússia precisa fazer “uma mudança” em sua estratégia na Síria, para atacar apenas o EI e evitar a perseguição da “oposição moderada” ao ditador Bashar al-Assad.

— A Rússia pode desempenhar um papel mais construtivo, deslocando o foco de seus ataques aéreos para derrotar o EI — disse Obama. — Nós temos uma coalizão de 65 países. A França tem sido uma parte central da ofensiva. A Rússia é uma coalizão de dois: o Irã e a Rússia apoiam Assad. Dadas as capacidades militares e a influência que eles têm sobre o regime, a Rússia seria extremamente útil se colaborasse na solução política da guerra civil e permitisse a todos nós nos concentrarmos contra o EI.

Os dois presidentes descartaram o envio de tropas, mas disseram que a coalizão já realizou mais de oito mil ataques aéreos a alvos dos extremistas. Eles também defenderam um apoio maior à Turquia, inclusive para receber milhares de refugiados que cruzam seu território para chegar à Europa.

— O EI é uma ameaça séria para todos nós, e devemos destruí-lo juntos. Esse grupo terrorista bárbaro e sua ideologia assassina não podem ser tolerados e devem ser destruídos — pregou Obama, que defendeu, ainda, a versão de Ancara no incidente de ontem com a Rússia e ressaltou o direito da Turquia de defender seu território.

O presidente francês defendeu ações conjuntas contra o EI, lembrando que a organização terrorista ainda tem muita força. Ele disse que também não quer misturar o debate entre refugiados e terroristas. Hollande está encontrando líderes mundiais para tentar unificar forças que atuam na Síria. Na segunda-feira, ele esteve com o premier britânico, David Cameron, e terá reuniões nesta semana com a chanceler alemã, Angela Merkel e Putin.


Fonte: O GLOBO