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domingo, 16 de abril de 2017

UM MUNDO EM SUSPENSE

Por Geovani F. dos Santos



O mundo está de olho no louco ditador norte-coreano Kim Jong Un e em suas ameaças de retaliar um possível ataque dos Estados Unidos. Já faz tempo que o regime norte-coreano tira o sono dos falcões de Washington, mas o que parece, o jogo de Pyongyang é pura retórica sensacionalista para impressionar a assistência mundial ou mesmo melindrar um possível confronto com o poderio militar americano. Embora não se possa prever se os norte-coreanos detém ou não artefatos nucleares capazes de alcançar a costa dos Estados Unidos, o fato é que as cartas  “estão sobre a mesa” e, se, não houver bom-senso dos norte-coreanos em parar o seu projeto atômico, a coisa pode degringolar para um conflito armado de amplas repercussões na península coreana.

De todos os lados se observa pedidos de cautela. China e Rússia já se manifestaram pedindo uma saída diplomática para crise. Resta saber se Trump terá bom-senso e consciência política necessária para continuar suportando as bravatas do megalomaníaco e histriônico líder norte-coreano. O tempo dirá.


O Republicano presidente americano, Donald Trump, já demonstrou   que está ávido por apertar os botões. Provou isso ao ordenar um ataque com Tomahawks ao regime de Assad  na Síria e também pelo lançamento da “mother of all bombs “  ( Moab) sobre os insurgentes talibãs do Afeganistão.  Esses dois ataques seriam apenas um recado, uma espécie de ultimato de que Washington não está fora do páreo, mas inteiramente atento ao movimento das peças do tabuleiro geopolítico mundial. O discurso de America first deve ter ficado para depois...

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O ROSTO DA GUERRA



Por Geovani F. dos Santos


Uma criança de 5 anos, bastante ferida, foi retirada dos escombros de um prédio atingido por um bombardeio em Aleppo na noite desta quarta-feira. O menino de 5 anos e os seus irmãos com idades de 1, 6 e 11 anos foram socorridos e levados a uma ambulância, onde receberam os primeiros atendimentos antes de serem conduzidas a um hospital. Omram Daqneesh torna-se mais uma vítima de uma guerra que já dura 5 longos anos e que já causou a morte de milhares de pessoas.  Desde que a guerra começou, 4500 crianças foram mortas no norte da cidade, a principal do país. Nesta mesma quarta feira, oito pessoas morreram , incluindo cinco crianças. O que causa mais tristeza é que esta é uma situação corriqueira, repetida inúmeras vezes no cotidiano de um conflito desumano, que não poupa a ninguém – desde civis inocentes a pobres crianças indefesas  alvejadas pelos morteiros dos insurgentes ou pelas bombas lançadas pelo regime sírio de Assad com o apoio da Rússia de Vladmir Putin.

Outras imagens contundentes já correram o mundo e, mesmo assim, a comoção internacional não foi suficiente para refrear a avassaladora espiral de violência que continua produzindo cenas saídas de um filme de horror. Revelam a crueza de um tempo de barbárie e a insanidade coletiva que assombra as nações, deixam um rastro de incertezas e traumas profundos nas pessoas envolvidas. O rosto de Omram, ensanguentado – capturado pela câmera do fotógrafo Mahmoud Raslan – mostra um aspecto da guerra que se apresenta terrivelmente chocante, todavia, é um fato que ocorre reiteradas vezes sem uma data prevista para terminar.


O menino Osram, com um olhar distante, parece em transe diante da realidade desconhecida. É mais uma vítima muda da loucura dos homens e dos seus expedientes destituídos de senso e de alteridade. O pobre menino sírio é um representante de todos os sofredores deste mundo que clamam por um mundo sem guerras ou conflitos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A AGRESSÃO IMIGRATÓRIA ISLÂMICA DA TURQUIA CONTRA O OCIDENTE



Por Gregg Roman e Gary C. Gambill



Durante meses, os políticos ocidentais estão agonizando sobre o que fazer com as massas de imigrantes muçulmanos sunitas que estão inundando a Europa em barcos, principalmente sírios. Em grande parte ausente dessa discussão está a pergunta da razão por que esse dilúvio está acontecendo.

Para começar, não tem muito a ver diretamente com a guerra civil na Síria ou o surgimento do ISIS. A vasta maioria dos 886.662 imigrantes que entraram ilegalmente na Europa neste ano embarcaram na Turquia, um pouco mais da metade deles eram sírios que já eram refugiados na Turquia há quatro anos. “Autoridades da UE [União Europeia] disseram… que o governo turco era muito eficaz, nos anos anteriores, em impedir que os refugiados saíssem da Turquia,” de acordo com o jornal Wall Street Journal.

O que causou o aumento forte na imigração é que o governo turco parou de contê-la. Nos anos recentes, o governo turco vem permitindo que traficantes humanos expandam vastamente suas operações, abaixando dez vezes menos os preços (de 10.000 a 12.000 dólares por pessoa no ano passado para cerca de 1.250 dólares hoje, de acordo com um relatório). Isso produziu o que o jornal New York Times chama de uma “economia de mercado negro multimilionária” que lucra do tráfico, desde os contrabandistas até os fabricantes de balsas infláveis baratas, coletes salva-vidas e outros equipamentos.

No início deste ano, havia ficado mais fácil e barato do que nunca antes entrar ilegalmente na Europa por meio da Turquia, e mais pessoas estão tirando vantagem da oportunidade que o governo turco criou.

Então, por que o presidente turco Recep Tayyip Erdogan abriu a porteira? Em poucas palavras, para extrair concessões financeiras, políticas e estratégicas dos governos europeus em troca do fechamento da porteira.

O governo turco não tem tido nenhuma vergonha de pedir dinheiro durante o curso de suas negociações com autoridades da UE em semanas recentes. Em 29 de novembro a UE concordou em dar para a Turquia uma “ajuda inicial” de 3,19 bilhões de dólares e acelerar o pedido turco de se unir a UE em troca de promessas turcas de patrulhar melhor seus litorais.
Erdogan também usou a crise para gerar apoio político externo antes das eleições rápidas em 1 de novembro, essencialmente uma repetição das eleições de junho de 2015 que viu o partido AKP perder sua maioria parlamentar pela primeira vez. Embora o protocolo diplomático ocidental desaprove visitas estatais durante a época da eleição, a chanceler alemã Angela Merkel visitou Istambul para reuniões de alto nível com Erdogan e o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu apenas duas semanas antes da votação. A Comissão Europeia adiou a divulgação de um relatório que explica em detalhe a erosão do Estado Democrático de Direito, a liberdade de expressão e a independência judicial na Turquia até depois da eleição a fim de, de acordo com a Reuters, “evitar antagonizar” o presidente da Turquia.

Talvez o mais preocupante é o fato de que a Turquia está buscando compensações financeiras por sua agressão imigratória à Europa. Numa carta enviada aos líderes europeus na cúpula de imigração da UE em 23 de setembro, Davutoglu propôs a criação de uma “zona segura” e uma zona de proibição de voos sob controle dos EUA que se estendesse desde a fronteira turca até 80 km dentro do norte da Síria, onde seu governo tem apoiado uma variedade de insurgentes islâmicos sunitas contra o exército sírio e os curdos locais.

Embora o começo da intervenção militar russa na Síria em 30 de setembro tivesse dado um basta nessa fantasia por enquanto (o que talvez explique por que os turcos foram tão rápidos para puxar o gatilho e abater um avião russo que violou de leve seu espaço aéreo em 24 de novembro), pode apostar que Erdogan usará a crise imigratória para pressionar o Ocidente a apoiar suas ambições na Síria.

Se tudo isso parece familiar, é porque o falecido líder líbio Muammar Gaddafi costumava fazer o mesmo jogo, abrindo e fechando a porteira da imigração ilegal de africanos para a Europa como um meio de extrair concessões. A questão mais problemática, então e agora, não é o que fazer com os imigrantes, mas o que fazer com um governo que de forma tão cruel manipula as massas de seres humanos oprimidos como tática de pressão diplomática.
Nisso há espaço para debate. Mas o primeiro passo para se fazer algo sobre isso é chamar Erdogan do que ele é — perigoso e manipulador. Ele não é amigo dos líderes ocidentais. Contudo, depois da reunião com Erdogan em Paris na terça-feira, o presidente Obama louvou a Turquia por ser “extraordinariamente generosa no que se refere ao seu apoio aos refugiados.”

O próximo passo, em vez de subornar a Turquia com pagamentos de resgates para encerrar a imigração de refugiados da Síria e Oriente Médio para o Ocidente, o Ocidente deveria fazer o feitiço virar contra o feiticeiro — o governo turco. A perda potencial de apoio ocidental à Turquia enquanto lida com a Rússia e o ISIS deveria ser o alerta de desastre iminente, convencendo Erdogan a conter a crise de refugiados.


O apoio material ocidental à Turquia deveria ser cortado totalmente a menos que o governo turco acabe com a crise de refugiados que o próprio governo turco está fabricando e comece a trazer estabilidade para a região. É oportuno que uma antiga tragédia grega perturbe a atual realidade calamitosa criada pelos turcos.



Fonte: www.juliosevero.com

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

ALIANÇA ENTRE UCRÂNIA E ISIS

Por Sierra Rayne



Introdução especial de Steve Baldwin para os leitores brasileiros do Blog Julio Severo:Pessoas do mundo inteiro que amam a liberdade e que cresceram durante os anos da Guerra Fria aprenderam a odiar a União Soviética e com boa razão. O comunismo aniquilava toda a liberdade e o comunismo de estilo soviético estava constantemente tentando obter mais território. Mas esse paradigma mudou. Infelizmente, há muitos líderes políticos, tanto nos EUA quanto em outros países, que não compreendem que a Guerra Fria acabou e que há novas ameaças que precisam ser confrontadas e novas alianças que precisam ser formadas. Putin pode não ser um líder perfeito, mas pessoas do mundo inteiro que amam a liberdade têm muito mais em comum com o povo russo do que têm com islamistas radicais que travam guerras santas. Este artigo revela a aliança de islamistas com algumas facções na Ucrânia e sugere que os EUA formem uma aliança com a Rússia para combater a crescente ameaça de muçulmanos que fazem guerra santa.

Em fevereiro passado, o jornal The Intercept foi o primeiro canal noticioso a revelar ligações claras entre o ISIS e a Ucrânia. O artigo, escrito por Marcin Mamon, começa relatando como o líder da filial secreta do Estado Islâmico em Istambul, na Turquia, estava indo para a Ucrânia para se unir a outros membros do ISIS na luta contra os ucranianos do Leste que querem mais autonomia de Kiev e uma provável aliança política com Moscou.

Apoiadores do ISIS na Ucrânia


Há um problema imediato. Provavelmente, muitos cidadãos comuns no Ocidente não estão cientes de que o ISIS está lutando ao lado dos nacionalistas da Ucrânia. Se tivessem essa informação, a opinião pública poderia mudar drasticamente em apoio da Rússia — como de fato deveria ser. Melhor ter a Ucrânia como um Estado aliado da Rússia do que mais um membro em gestação do Califado Islâmico que está se formando em nível mundial.

Qualquer argumento de que o ISIS está, de pura bondade, ajudando os nacionalistas ucranianos a combater os separatistas apoiados pela Rússia, e que o ISIS arrumará suas malas e deixará a Ucrânia se uma vitória ocorrer, é impossível de acreditar. Se os separatistas russos perderem no Leste da Ucrânia, a Ucrânia muito provavelmente cairá sob o controle — pelo menos em parte — do ISIS, colocando o ISIS na posição de um controlador de um país que está na fronteira de vários membros da OTAN. Será que o Ocidente não apoiou o lado errado na Ucrânia? Será que os EUA não deveriam em vez disso ter apoiado a Rússia?


Kiev se tornou um importante ponto de acesso para os terroristas do ISIS entrarem na Europa Ocidental:

A Ucrânia está agora se tornando um importante ponto de parada para os irmãos, como Ruslan. Na Ucrânia, você pode comprar um passaporte e uma nova identidade. Por 15.000 dólares, um combatente recebe um novo nome e um documento legal que atesta uma cidadania ucraniana. A Ucrânia não pertence à União Europeia, mas é um caminho fácil para a imigração para o Ocidente. Os ucranianos têm poucas dificuldades para obter visto para a vizinha Polônia, onde eles podem trabalhar em locais de construção e restaurantes, preenchendo a lacuna deixada pelos milhões de poloneses que partiram em busca de trabalho na Inglaterra e Alemanha.

O que é estupendo é que Justin Raimondo no site Antiwar.com, predisse, em março deste ano, os problemas que isso provocaria: Estamos sendo avisados de que o ISIS está planejando ataques terroristas na Europa, e que forças de segurança estão ocupadas prendendo suspeitos em todo o continente — mas aí está este buraco escancarado nas defesas do Ocidente, onde “os irmãos” estão se infiltrando quietamente, sem que os meios de comunicação deem atenção. Em cooperação com grupos ultranacionalistas como o Setor de Direita, que também formou seus batalhões semiautônomos, os Islamistas da Ucrânia, brandindo passaportes ucranianos, abriram uma via de acesso ao Ocidente…

Considerando que os EUA estão mandando muita ajuda para a Ucrânia, quanto dessa ajuda acaba escoando para esses aliados do ISIS — e como essa ajuda será usada no futuro? Se os senadores republicanos John McCain e Lindsey Graham conseguirem fazer o que querem, armas dos EUA logo acabarão nas mãos desses terroristas, cuja guerra santa contra os russos inevitavelmente se estenderá para o Ocidente e atingirá as capitais da Europa.

Esse tiro pela culatra virá com fúria: os EUA estão criando seus próprios inimigos, e lhes dando as armas para fazer mal aos EUA, ao mesmo tempo em que os EUA afirmam que há uma necessidade de monitoração sobre o mundo inteiro a fim de combater o terrorismo. Os cientistas loucos que estão formulando a política externa dos EUA estão criando um exército de monstros Frankenstein — que com certeza irão atrás de seus criadores iludidos.

Preciso como um relógio, oito meses depois o Ocidente vê os ataques em Paris. Em julho, o jornal New York Times informou que três batalhões compostos exclusivamente de islâmicos estavam lutando no Leste da Ucrânia. Ao mesmo tempo, Elliot Friedland do jornal The Jewish Voice (A Voz Judaica) alertou contra os problemas que estão surgindo com a incursão islâmica na Ucrânia:

Há batalhões paramilitares islâmicos lutando ao lado das forças armadas ucranianas. Esses batalhões estão alinhados ao Estado Islâmico e facções islamistas chechenas. Se os EUA intensificarem a ajuda militar à Ucrânia, cujo exército é notoriamente corrupto, essa ajuda poderá cair nas mãos de batalhões islâmicos que estão atualmente sendo financiados por uma mistura de oligarcas ucranianos, chefes dos países islâmicos do Golfo, crimes violentos e extorsão. O site Ruskayya Blatina disse que algumas milícias que pertencem à organização terrorista ISIS começaram a lutar contra os soldados russos na Ucrânia com o apoio das autoridades americanas que deram recomendações ao governo ucraniano com relação ao Estado Islâmico… Os combatentes alinhados ao Estado Islâmico também usam a Ucrânia como um lugar barato e fácil para comprar armas, as quais podem ser contrabandeadas para o Iraque, Síria e Chechênia.

Durante os dois meses passados, as conexões entre a Ucrânia e o ISIS fizeram promoções na cadeia de comando, como ficou comprovado por uma autoridade ucraniana de patente elevada que deu seu apoio público ao ISIS. Na semana passada, armas — inclusive o sistema de mísseis antiaéreo FN-6 — das forças armadas da Ucrânia “como que por encantamento mágico” acabaram nas mãos do ISIS “tendo sido entregues ao ISIS na Síria por meio de rotas de contrabando na Turquia.”

Logo depois, o grupo hacker russo CyberBerkut afirmou que está “de posse de documentos que indicam que os funcionários do Ukroboronprom, conglomerado de indústrias bélicas estatais da Ucrânia, teve discussões com autoridades do governo do Qatar sobre a venda possível de mísseis terra-ar [os S-125-2D Pechora-2D (registrados na OTAN como SA-3 Goa)] em setembro,” armas que foram, quase que certamente, destinadas ao ISIS. De acordo com os documentos vazados, a Embaixada dos EUA em Doha aprovou a negociação.

Que bagunça. A pergunta para o Ocidente agora é: Quem eles preferem controlando o território da Ucrânia em futuro próximo, o ISIS ou a Rússia? A resposta é claramente a Rússia. Se o Ocidente quiser construir uma coalizão comum contra o Estado Islâmico, o melhor jeito pode ser remover da OTAN o Estado Islâmico da Turquia, deixar a Rússia controlar a Ucrânia e então convidar a Rússia para ser membro da OTAN (ou qualquer nova aliança que pareça apropriada) em nossa causa comum contra a guerra santa islâmica mundial.


Tradução: Júlio Severo
Fonte: Friday Fax
Divulgação: www.juliosevero.com

domingo, 29 de novembro de 2015

Crise entre Moscou e Ancara exige negociação

A derruba da de um caça russo SU-24 pela Força Aérea da Turquia, no início da semana, foi mais que um incidente diplomático a realçar a complexa realidade geopolítica do Oriente Médio. A ação mostra que a região é hoje a maior ameaça à paz mundial, devido a conflitos de interesses em escalas local, regional e global. Segundo a Turquia, o jato russo invadiu o espaço aéreo turco na fronteira com a Síria e foi alertado dez vezes antes de ser abatido. Moscou contesta a versão, afirmando que seus pilotos voavam em território sírio.


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Seja como for, Moscou não pode alegar que foi pego de surpresa. Desde que a Rússia iniciou os bombardeios na Síria, há dois meses, inúmeros foram os alertas da coalizão liderada pelos EUA que luta contra o Estado Islâmico (ISIS): os ataques russos poderiam gerar este tipo de incidente. O mesmo alerta foi feito pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Além da defesa de seu território, Ancara tem outras razões para retaliar, uma vez que boa parte dos insurgentes sírios sob bombardeio possui laços étnicos com os turcos.

Apesar da retórica contra o terror, a Rússia vem priorizando alvos rebeldes sírios em vez dos extremistas do ISIS, mesmo após o grupo assumir a derrubada de um Airbus da companhia russa Metrojet no Sinai, no fim de outubro, e os atentados de Paris, no último dia 13. Isso se explica não só pela aliança estratégica entre Vladimir Putin e o ditador sírio, Bashar al-Assad, mas também pelos vínculos que Moscou mantém com Teerã. Assad, alauita, um sub-ramo do xiismo, tem o apoio dos aiatolás xiitas do Irã e do grupo libanês Hezbollah.

Em retaliação à derrubada de seu caça, Moscou adotou sanções contra Damasco. Convênios comerciais, tecnológicos e culturais foram suspensos. Além disso, 39 executivos turcos, em viagem de negócios, foram detidos em Moscou na quarta-feira por terem entrado no país com vistos de turismo. O primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, vai anunciar hoje um pacote de sanções econômicas.

Por trás dessas escaramuças, escondem-se estratégias que tornam a guerra civil síria ainda mais um inferno sem fim, tendo como consequência a crise humanitária dos refugiados em êxodo para a Europa. Tanto Rússia como Turquia têm ambições de se tornarem atores regionais influentes, qualquer que seja o desfecho dos conflitos na região, e a sorte de Assad. É bom que comecem por demonstrar que estão à altura da tarefa, buscando uma solução diplomática, que permita a todos se concentrar na luta contra o inimigo comum: o Estado Islâmico.


Fonte: O Globo

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

EM ROTA DE COLISÂO


Derrubada de avião russo pela Turquia abre crise e dificulta entendimento sobre a Síria


HENRIQUE GOMES BATISTA Correspondente








WASHINGTON- “Uma punhalada nas costas que terá consequências graves”. Com essas palavras, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, classificou a derrubada de um avião militar do seu país por caças turcos na fronteira da Turquia com a Síria, ontem, na primeira vez em que uma aeronave russa foi abatida por um país-membro da Otan desde a Guerra da Coreia, nos anos 1950. O incidente aumentou as tensões entre as duas nações — já altas desde o início da intervenção russa na Síria, em setembro — e também entre o Kremlin e a Aliança Atlântica. Otan e Moscou se estranham desde 2014 após a anexação da Península da Crimeia pela Rússia, acusada também de intervir na revolta separatista no Leste da Ucrânia. A derrubada do avião gerou troca de acusações entre Moscou e Ancara, dificultando as chances de uma resolução diplomática para o conflito sírio, atualmente em seu quinto ano.

Imagens do bombardeiro Sukhoi Su-24 em chamas foram exibidas pela TV turca, enquanto o governo afirmava que o avião fora derrubado depois de violar o espaço aéreo da Turquia, mesmo após ser alertado pelas autoridades. Segundo o governo turco, foram dez alertas em cinco minutos, antes que o avião fosse atingido.

— Nunca toleraremos crimes como os que foram cometidos hoje (ontem) — reagiu Putin, que atribuiu a derrubada do avião a “cúmplices do terrorismo”. — Isso foi além da luta normal contra os terroristas. Nossos pilotos e nosso avião não ameaçaram a Turquia em momento algum, e isto está claro.

Na Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan afirmou que a derrubada do avião estava de acordo com as regras adotadas em 2012, depois que um caça turco foi derrubado na Síria, e alertou que “todos deveriam respeitar o direito da Turquia de defender suas fronteiras”.

— A razão pela qual incidentes piores não aconteceram no passado é o temperamento calmo da Turquia — declarou o presidente, ao alegar que não fora a primeira violação do espaço aéreo turco por aeronaves da Rússia.

O Conselho do Atlântico Norte, órgão político da Otan, discutiu a crise numa reunião extraordinária. Após o encontro, o secretário-geral da aliança, Jens Stoltenberg, afirmou que buscará aprofundar o diálogo entre Moscou e Ancara, e pediu a ambos os lados que evitassem uma escalada das tensões.

Horas após a queda do avião, o tenente-general Sergei Rudskoy, porta-voz das Forças Armadas russas, afirmou que os pilotos conseguiram ejetar-se, mas um deles morreu fuzilado ainda no ar, por rebeldes em terra, quando desciam de paraquedas. O paradeiro do segundo piloto é desconhecido. Um helicóptero militar enviado para o resgate foi atingido por foguetes, e fez um pouso de segurança próximo à fronteira. Um fuzileiro morreu no ataque.

OBAMA PEDE ‘PAPEL CONSTRUTIVO’ AO KREMLIN

Na Casa Branca, os presidentes François Hollande, da França, e Barack Obama, dos EUA, anunciaram ontem que vão trabalhar juntos contra o Estado Islâmico (EI), pedindo ainda mais atuação da União Europeia contra o grupo. Em entrevista coletiva, não anunciaram medidas concretas, mas pediram uma mudança de postura da Rússia. Obama afirmou que Moscou não deve aumentar a tensão na região, e que a Rússia precisa fazer “uma mudança” em sua estratégia na Síria, para atacar apenas o EI e evitar a perseguição da “oposição moderada” ao ditador Bashar al-Assad.

— A Rússia pode desempenhar um papel mais construtivo, deslocando o foco de seus ataques aéreos para derrotar o EI — disse Obama. — Nós temos uma coalizão de 65 países. A França tem sido uma parte central da ofensiva. A Rússia é uma coalizão de dois: o Irã e a Rússia apoiam Assad. Dadas as capacidades militares e a influência que eles têm sobre o regime, a Rússia seria extremamente útil se colaborasse na solução política da guerra civil e permitisse a todos nós nos concentrarmos contra o EI.

Os dois presidentes descartaram o envio de tropas, mas disseram que a coalizão já realizou mais de oito mil ataques aéreos a alvos dos extremistas. Eles também defenderam um apoio maior à Turquia, inclusive para receber milhares de refugiados que cruzam seu território para chegar à Europa.

— O EI é uma ameaça séria para todos nós, e devemos destruí-lo juntos. Esse grupo terrorista bárbaro e sua ideologia assassina não podem ser tolerados e devem ser destruídos — pregou Obama, que defendeu, ainda, a versão de Ancara no incidente de ontem com a Rússia e ressaltou o direito da Turquia de defender seu território.

O presidente francês defendeu ações conjuntas contra o EI, lembrando que a organização terrorista ainda tem muita força. Ele disse que também não quer misturar o debate entre refugiados e terroristas. Hollande está encontrando líderes mundiais para tentar unificar forças que atuam na Síria. Na segunda-feira, ele esteve com o premier britânico, David Cameron, e terá reuniões nesta semana com a chanceler alemã, Angela Merkel e Putin.


Fonte: O GLOBO


A VIDA SOB BOMBAS DO EI

Raqqa sofre com opressão de jihadistas e ataques aéreos

Por NATALIA SANCHA Do “El País” -BEIRUTE-


Em junho de 2014, ninguém pensava que o líder do Estado Islâmico (EI), Abu Bakr al-Baghdadi, escolheria Raqqa como capital de seu reino particular de terror. Primeiro, fecharam os locais onde eram vendidos álcool e tabaco. Depois estabeleceram as orações obrigatórias e, mais tarde, o visual oficial: véus para as mulheres, barbas para os homens.

— Deixamos de ser um rabisco no mapa para nos tornarmos a Nova York síria — conta Abu Ahmed, coordenador do grupo Raqqa Está Sendo Massacrada Silenciosamente (Raqqa SL), destacando a enxurrada de estrangeiros que chegaram à cidade.

O EI implanta sua sociedade sonhada por meio de tribunais islâmicos que impõem suas leis com chibatadas, decapitações ou apedrejamentos de homossexuais e adúlteros. As rotatórias da cidade se transformaram em matadouros de castigos exemplares.

— A hisbah (polícia islâmica) criou até mesmo um órgão específico para policiar as mulheres — conta Mahmoud, médico de Raqqa que hoje vive refugiado na Noruega.

Via Skype, Abu Ahmed conta que o controle do EI impede as pessoas de deixarem a cidade. Na última quarta-feira, após a intensificação dos bombardeios em represália aos atentados de Paris, os extremistas fecharam todos os cafés com acesso à internet. Cerca de meio milhão de habitantes da cidade síria estão desconectados do resto do mundo.

— Os jihadistas vivem entre a população local, mas são os civis que morrem pelas bombas — lamenta Mahmoud.

Enquanto milhares de jovens fogem para a Europa a fim de evitar o serviço militar nas zonas leais a Bashar al-Assad, outros integram a campanha de recrutamento do EI. Milhares de jihadistas estrangeiros fazem o caminho até o califado. E entre os vizinhos que ficam, nem todos discordam de sua nova vida.

— Fugir do califado custa quase € 200 por pessoa, o que deixa os mais pobres sem escapatória — afirma Bilal, um mecânico de Deir ez-Zor refugiado na Turquia. — Vive-se melhor nas zonas do EI do que nos bairros controlados por Assad, onde se morre de fome.



Fonte: O Globo 

domingo, 25 de outubro de 2015

ESQUECEMOS QUE ASSAD É A MAIOR RAZÃO DO ÊXODO DE SÍRIOS

Por Rasheed Abou-Alsamh

 
 
Quatro anos e meio depois do início da revolta popular contra a ditadura sangrenta do presidente sírio Bashar alAssad — que começou como protestos pacíficos contra o regime —, estamos vendo a tragédia humanitária de milhares de sírios arriscando suas vidas para fugir para a Europa. Com 250 mil já mortos na Síria por todos os lados, mais de quatro milhões de refugiados fora do país e mais de dez milhões deslocados internamente, a catástrofe da matança está longe do fim.
 
 
 
Marcelo



Em vez de clamar para que se pressione o regime de Assad no sentido de negociar um cessar-fogo e uma transição para um novo governo sem ele, e assim tirar a razão principal para esse êxodo sem precedente de refugiados para a Europa, os críticos de plantão, a maioria islamofóbicos e com inveja das nações árabes ricas, resolveram apontar o dedo para os países do Golfo por supostamente não terem aceitado refugiados sírios. A Anistia Internacional publicou um mapa do Oriente Médio na internet mostrando quantos refugiados cada país da região tinha aceitado. O minúsculo Líbano tem mais de 1,1 milhão; a Turquia, quase dois milhões; a Jordânia, quase 700 mil. Nos países do Golfo, botou “zero” para cada um. A verdade é um pouco mais complicada do que esse reducionismo, bom para enraivecer a opinião publica ocidental mas que não conta a história verdadeira.

A verdade é que nenhum dos países do Golfo assinou a convenção para refugiados da ONU, de 1951, que define quem é considerado um refugiado e estabelece regras de como eles devem ser tratados e protegidos. Por isso, esses países não têm uma categoria de vistos para refugiados e nem programas oficiais para lidar com esse tipo de problema. Com certeza, eles deveriam assinar a convenção e instituir vistos para refugiados. Isso facilitaria em muito a entrada deles nos países do Golfo e ajudaria os governos a monitorá-los e garantir que suas necessidades básicas fossem atendidas.
 

O governo da Arábia Saudita reagiu lentamente às acusações, e o Ministério de Relações Exteriores finalmente divulgou uma nota oficial em inglês em seu site, no dia 13 de setembro, dizendo que o reino tinha acolhido aproximadamente 2,5 milhões de sírios desde 2011. “Para assegurar a dignidade e a segurança deles, o reino adotou uma política que não os trata como refugiados e nem os bota em campos para refugiados,” disse o governo. “A eles foi dada a liberdade de movimentação dentro do país, e àqueles que queriam ficar aqui (umas centenas de milhares) foi dado o status de residentes legais, com o direito de receber tratamento médico gratuiro, entrar no mercado de trabalho e ingressar em escolas e universidades. Isso foi incluído num decreto real de 2012, que instruiu escolas públicas a aceitaram estudantes sírios. Segundo dados oficiais, o sistema de ensino público já aceitou mais de cem mil estudantes sírios.”
 

Além disso, o governo saudita lembrou que já deu US$ 700 milhões em ajuda financeira a refugiados sírios, principalmente aqueles no campo de Zaatari, na Jordânia. Essa ajuda humanitária incluiu o fornecimento de comida, material para alojamentos, tratamento médico em clínicas sauditas nos campos de refugiados e o pagamento do aluguel de um grande número de famílias sírias no Líbano e na própria Síria.
 

O jornalista saudita Jamal Khashoggi, em uma coluna de opinião no jornal “Al-Hayat”, disse que os refugiados sírios estavam indo para a Europa em massa porque querem fincar raízes em países onde podem se tornar cidadãos e ter uma vida boa. “A Arábia Saudita pode receber mais sírios, como alguns países europeus e organizações de direitos humanos estão ingênua ou maliciosamente exigindo,” ele escreveu. “Contudo, os sírios não querem ir para a Arábia Saudita como refugiados. Eles já tiveram o suficiente ao viver em campos de refugiados... e enquanto nós não lhes dermos seu país de volta, eles vão continuar a viajar em busca de um país onde eles possam construir um futuro, e a Arábia Saudita e os países do Golfo não podem lhes oferecer esta opção.”
 

Khashoggi defende que os países do Golfo já têm trabalhadores estrangeiros demais nas suas populações, especialmente os Emirados Árabes e o Qatar, onde os estrangeiros são mais numerosos do que os nativos numa proporção de cinco por um. Ele também diz que as economias do Golfo estão tendo dificuldade em achar empregos suficientes para todos os seus próprios cidadãos que precisam trabalhar. Isso é um problema sério na Arábia Saudita, onde o governo há anos tem um programa de nacionalização do mercado de trabalho, que, contudo, encontra muita resistência do setor privado. Este prefere contratar estrangeiros com salários mais baixos e que trabalham mais.
 

Em vez de pressionar Assad a negociar um cessar-fogo permanente na Síria, seus aliados, os russos e os iranianos, estão intensificando sua ajuda militar para apoiar um regime brutal, que continua matando centenas de sírios toda semana com ataques cruéis, usando bombas de barril lançadas de helicópteros. Agora, temos o apoio russo à expansão de uma base aérea militar em Latakia, na Síria, um reduto alauita do regime. Tal apoio é crucial para que Assad continue a acreditar que ele pode permanecer no poder, mesmo que somente numa parte reduzida da antiga Síria. Enquanto isso, o Estado Islâmico continua ocupando grande parte do norte e leste do país. E são os pobres civis sírios que continuam presos entre os dois lados. É uma lástima que poderia ter sido contida já faz muito tempo.
 
 
 
Rasheed Abou-Alsamh é jornalista
 
Fonte: O Globo. Edição de 18/09/2015