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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A AGRESSÃO IMIGRATÓRIA ISLÂMICA DA TURQUIA CONTRA O OCIDENTE



Por Gregg Roman e Gary C. Gambill



Durante meses, os políticos ocidentais estão agonizando sobre o que fazer com as massas de imigrantes muçulmanos sunitas que estão inundando a Europa em barcos, principalmente sírios. Em grande parte ausente dessa discussão está a pergunta da razão por que esse dilúvio está acontecendo.

Para começar, não tem muito a ver diretamente com a guerra civil na Síria ou o surgimento do ISIS. A vasta maioria dos 886.662 imigrantes que entraram ilegalmente na Europa neste ano embarcaram na Turquia, um pouco mais da metade deles eram sírios que já eram refugiados na Turquia há quatro anos. “Autoridades da UE [União Europeia] disseram… que o governo turco era muito eficaz, nos anos anteriores, em impedir que os refugiados saíssem da Turquia,” de acordo com o jornal Wall Street Journal.

O que causou o aumento forte na imigração é que o governo turco parou de contê-la. Nos anos recentes, o governo turco vem permitindo que traficantes humanos expandam vastamente suas operações, abaixando dez vezes menos os preços (de 10.000 a 12.000 dólares por pessoa no ano passado para cerca de 1.250 dólares hoje, de acordo com um relatório). Isso produziu o que o jornal New York Times chama de uma “economia de mercado negro multimilionária” que lucra do tráfico, desde os contrabandistas até os fabricantes de balsas infláveis baratas, coletes salva-vidas e outros equipamentos.

No início deste ano, havia ficado mais fácil e barato do que nunca antes entrar ilegalmente na Europa por meio da Turquia, e mais pessoas estão tirando vantagem da oportunidade que o governo turco criou.

Então, por que o presidente turco Recep Tayyip Erdogan abriu a porteira? Em poucas palavras, para extrair concessões financeiras, políticas e estratégicas dos governos europeus em troca do fechamento da porteira.

O governo turco não tem tido nenhuma vergonha de pedir dinheiro durante o curso de suas negociações com autoridades da UE em semanas recentes. Em 29 de novembro a UE concordou em dar para a Turquia uma “ajuda inicial” de 3,19 bilhões de dólares e acelerar o pedido turco de se unir a UE em troca de promessas turcas de patrulhar melhor seus litorais.
Erdogan também usou a crise para gerar apoio político externo antes das eleições rápidas em 1 de novembro, essencialmente uma repetição das eleições de junho de 2015 que viu o partido AKP perder sua maioria parlamentar pela primeira vez. Embora o protocolo diplomático ocidental desaprove visitas estatais durante a época da eleição, a chanceler alemã Angela Merkel visitou Istambul para reuniões de alto nível com Erdogan e o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu apenas duas semanas antes da votação. A Comissão Europeia adiou a divulgação de um relatório que explica em detalhe a erosão do Estado Democrático de Direito, a liberdade de expressão e a independência judicial na Turquia até depois da eleição a fim de, de acordo com a Reuters, “evitar antagonizar” o presidente da Turquia.

Talvez o mais preocupante é o fato de que a Turquia está buscando compensações financeiras por sua agressão imigratória à Europa. Numa carta enviada aos líderes europeus na cúpula de imigração da UE em 23 de setembro, Davutoglu propôs a criação de uma “zona segura” e uma zona de proibição de voos sob controle dos EUA que se estendesse desde a fronteira turca até 80 km dentro do norte da Síria, onde seu governo tem apoiado uma variedade de insurgentes islâmicos sunitas contra o exército sírio e os curdos locais.

Embora o começo da intervenção militar russa na Síria em 30 de setembro tivesse dado um basta nessa fantasia por enquanto (o que talvez explique por que os turcos foram tão rápidos para puxar o gatilho e abater um avião russo que violou de leve seu espaço aéreo em 24 de novembro), pode apostar que Erdogan usará a crise imigratória para pressionar o Ocidente a apoiar suas ambições na Síria.

Se tudo isso parece familiar, é porque o falecido líder líbio Muammar Gaddafi costumava fazer o mesmo jogo, abrindo e fechando a porteira da imigração ilegal de africanos para a Europa como um meio de extrair concessões. A questão mais problemática, então e agora, não é o que fazer com os imigrantes, mas o que fazer com um governo que de forma tão cruel manipula as massas de seres humanos oprimidos como tática de pressão diplomática.
Nisso há espaço para debate. Mas o primeiro passo para se fazer algo sobre isso é chamar Erdogan do que ele é — perigoso e manipulador. Ele não é amigo dos líderes ocidentais. Contudo, depois da reunião com Erdogan em Paris na terça-feira, o presidente Obama louvou a Turquia por ser “extraordinariamente generosa no que se refere ao seu apoio aos refugiados.”

O próximo passo, em vez de subornar a Turquia com pagamentos de resgates para encerrar a imigração de refugiados da Síria e Oriente Médio para o Ocidente, o Ocidente deveria fazer o feitiço virar contra o feiticeiro — o governo turco. A perda potencial de apoio ocidental à Turquia enquanto lida com a Rússia e o ISIS deveria ser o alerta de desastre iminente, convencendo Erdogan a conter a crise de refugiados.


O apoio material ocidental à Turquia deveria ser cortado totalmente a menos que o governo turco acabe com a crise de refugiados que o próprio governo turco está fabricando e comece a trazer estabilidade para a região. É oportuno que uma antiga tragédia grega perturbe a atual realidade calamitosa criada pelos turcos.



Fonte: www.juliosevero.com

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

IMIGRANTES E RECESSÃO


* Por Leonardo Cavalcanti

 Durante o primeiro quinquênio desta década, período no qual o Brasil tinha uma taxa de crescimento positiva, o país teve um aumento de imigrantes no trabalho formal, especialmente de pessoas do Sul Global (haitianos e senegaleses, entre outros). No período, o número de imigrantes empregados, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), passou de 69.015, em 2010, para 155.982, em 2014, crescimento de 126,01%. No entanto, a atual recessão econômica torna o cenário migratório mais complexo.
Em contextos de crise, o mercado de trabalho passa a ser fundamental para a magnitude e a direção dos fluxos migratórios. Um caso ilustrativo é a experiência da Espanha, o segundo país que mais recebeu estrangeiros na década passada no mundo ocidental, de acordo com os dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), ficando atrás somente dos Estados Unidos. Naquele país, o mercado de trabalho tinha um nicho de atividades que demandava imigrantes em áreas como a da construção, da agricultura e serviços. Com a crise econômica e o desaquecimento do mercado de trabalho, a relação emigração/ imigração começou a apresentar saldo negativo.
No entanto, vincular as migrações, única e exclusivamente, a uma vertente econômica ou ao mercado de trabalho é incorrer em uma limitação teórica e política, pois as migrações não se dão unicamente por uma lógica economicista, no sentido da atração e expulsão (push and pull) como entendia a perspectiva neoclássica das migrações. A atual recessão econômica não implica, necessariamente, que o Brasil deixará de receber imigrantes. Com a desvalorização cambial, as empresas que se situam no final da cadeia produtiva do agronegócio — aquelas que mais empregam imigrantes no sul do país — podem ter as exportações ampliadas e a demanda por esses trabalhadores pode continuar.
Com o aumento da imigração do Sul Global no Brasil e o atual cenário de crise, o país é desafiado a pensar em política migratória e seria um desacerto reduzir os imigrantes a uma simples força de trabalho disponível à reprodução do capital. Como também seria um equívoco desconsiderar a função produtiva e o impacto na economia da população migrante. A junção entre mercado de trabalho e proteção dos direitos dos imigrantes aponta para um caminho mais realista e eficaz na gestão das migrações na atualidade.
O conhecimento rigoroso do fenômeno migratório é o primeiro passo para poder pensar políticas públicas adequadas. Por isso, os pesquisadores do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) apresentaram à sociedade, na Câmara dos Deputados, os dados sobre a presença dos imigrantes no Brasil. O momento é oportuno, já que o Parlamento discute um novo marco legal para as migrações no Brasil.
Leonardo Cavalcanti é professor da Universidade de Brasília e coordenador do Observatório das Migrações Internacionais
 
 
CAVALCANTI, Leonardo. Imigrantes e recessão. O Globo, Rio de Janeiro, 23 out. 2001, Opinião, p. 14..