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domingo, 7 de agosto de 2016

O ‘NOVO’ MAL-ESTAR NA GLOBALIZAÇÃO


Por Joseph E Stiglitz


Grandes segmentos da população nos países avançados não estão em melhores condições
 


Há 15 anos, escrevi um pequeno livro chamado “Globalization and its Discontents” (“O mal-estar na globalização”), em que descrevia uma crescente oposição às reformas globalizantes nos países em desenvolvimento. Parecia um mistério: prometeram às pessoas nas nações emergentes que a globalização aumentaria o bem-estar geral. Então, por que tanta gente se tornara hostil a ela?

Agora, se somaram aos opositores da globalização nos países emergentes e em desenvolvimento dezenas de milhões nos países desenvolvidos. Pesquisas de opinião, inclusive um cuidadoso levantamento feito por Stanley Greenberg e seus associados para o Instituto Roosevelt, mostram que o comércio está entre as maiores fontes de descontentamento para uma grande parcela dos americanos. Visões similares aparecem na Europa.

Como é possível que seja tão mal visto algo que nossos líderes políticos — e muitos economistas — disseram que deixaria a todos em melhores condições?

Uma resposta que se ouve de economistas neoliberais que defenderam essas políticas é que as pessoas estão em melhores condições. Elas simplesmente ignoram isso. Seu malestar é questão para psiquiatras, em vez de economistas.

Porém, dados sobre renda sugerem que são os neoliberais que podem se beneficiar de uma terapia. Grandes segmentos da população nos países avançados não estão em melhores condições: nos EUA, os 90% mais pobres enfrentam uma estagnação da renda há 25 anos. A renda média dos trabalhadores homens em horário integral é atualmente menor em termos reais (considerada a inflação) do que era há 42 anos. Na base da pirâmide, os salários reais são comparáveis aos níveis de 60 anos atrás.

Os efeitos do dissabor econômico e desestruturação que muitos americanos estão vivendo aparecem até mesmo nas estatísticas de saúde. Por exemplo, os economistas Anne Case e Angus Deaton, este vencedor do Prêmio Nobel de 2015, mostraram que a expectativa de vida no segmento de americanos brancos está caindo.

As coisas estão um pouco melhores na Europa — mas só um pouco.

O novo livro de Branko Milanovic, “Global Inequality: A New Approach for the Age of Globalization” (“Desigualdade global: Uma nova abordagem para a era da globalização”) fornece alguns insights vitais, ao mirar nos grandes vencedores e perdedores em termos de renda em duas décadas, entre 1988 e 2008. Entre os grandes vencedores está o 1% global da plutocracia mundial, mas também a classe média em novas economias emergentes. Entre os grandes perdedores — aqueles que ganharam pouco ou nada — estão aqueles na base da pirâmide e as classes média e trabalhadora dos países desenvolvidos. Globalização não é a única razão, mas é um dos motivos.

Considerando-se uma situação ideal, o mercado livre equilibraria os salários dos trabalhadores sem qualificação em todo o mundo. O comércio de bens é um substituto para o deslocamento de pessoas. Importar bens da China — que requerem um grande número de trabalhadores sem qualificação para serem produzidos — reduz a demanda por trabalhadores sem qualificação em Europa e EUA.

Esta força é tão poderosa que, se não houvesse custos de transporte, e os EUA e a Europa não tivessem outra fonte de vantagens competitivas, tais como tecnologia, no fim seria como se os trabalhadores chineses continuassem imigrando para os EUA e a Europa até que as diferenças salariais tivessem sido completamente anuladas. Não é de estranhar que os neoliberais nunca tenham divulgado esta consequência da liberalização comercial que apregoavam beneficiar a todos.

O fracasso da globalização em entregar as promessas dos políticos de plantão atingiu a confiança no “sistema”. E as ofertas generosas dos governos para resgatar os bancos responsáveis pela crise financeira de 2008, enquanto deixaram os cidadãos comuns à própria sorte, reforçaram a visão de que o fracasso não era mera questão de equívocos econômicos.

Nos EUA, os republicanos no Congresso até mesmo se opuseram à assistência daqueles diretamente atingidos pela globalização. De um modo geral, os neoliberais, aparentemente preocupados com os efeitos adversos dos incentivos, se opuseram a medidas de bem-estar social que protegeriam os perdedores.

Mas não se pode ter tudo: se a globalização é para beneficiar a maior parte da sociedade, medidas robustas de proteção social devem ser implementadas. Os escandinavos compreenderam isso há muito tempo; faz parte do contrato social que manteve a sociedade aberta à globalização e às mudanças tecnológicas. Os neoliberais de outros lugares não tiveram a mesma compreensão — e, agora, estão sendo punidos nas eleições nos EUA e na Europa.

A globalização, evidentemente, é apenas parte do que está acontecendo. A renovação tecnológica é outra parte. Mas toda essa abertura deveria ter nos tornado mais ricos, e os países avançados poderiam ter implementado medidas que garantissem que os ganhos fossem amplamente compartilhados.

Em vez disso, empurraram políticas que reestruturam os mercados elevando a desigualdade e minando a performance econômica geral. O crescimento desacelerou à medida que as regras do jogo foram reescritas para estimular interesses de bancos e corporações — os ricos e poderosos — às custas do resto.

A mensagem principal em “Globalization and its Discontents” era que o problema não era a globalização, mas como o processo estava sendo administrado. Infelizmente, a administração não mudou. Quinze anos mais tarde, o novo mal-estar trouxe essa mensagem de volta aos países desenvolvidos.


*Joseph E. Stiglitz é Prêmio Nobel de Economia, é professor da Universidade de Columbia ( EUA) e economista-chefe do Instituto Roosevelt.

Fonte: O Globo de 07/08/2016


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A AGRESSÃO IMIGRATÓRIA ISLÂMICA DA TURQUIA CONTRA O OCIDENTE



Por Gregg Roman e Gary C. Gambill



Durante meses, os políticos ocidentais estão agonizando sobre o que fazer com as massas de imigrantes muçulmanos sunitas que estão inundando a Europa em barcos, principalmente sírios. Em grande parte ausente dessa discussão está a pergunta da razão por que esse dilúvio está acontecendo.

Para começar, não tem muito a ver diretamente com a guerra civil na Síria ou o surgimento do ISIS. A vasta maioria dos 886.662 imigrantes que entraram ilegalmente na Europa neste ano embarcaram na Turquia, um pouco mais da metade deles eram sírios que já eram refugiados na Turquia há quatro anos. “Autoridades da UE [União Europeia] disseram… que o governo turco era muito eficaz, nos anos anteriores, em impedir que os refugiados saíssem da Turquia,” de acordo com o jornal Wall Street Journal.

O que causou o aumento forte na imigração é que o governo turco parou de contê-la. Nos anos recentes, o governo turco vem permitindo que traficantes humanos expandam vastamente suas operações, abaixando dez vezes menos os preços (de 10.000 a 12.000 dólares por pessoa no ano passado para cerca de 1.250 dólares hoje, de acordo com um relatório). Isso produziu o que o jornal New York Times chama de uma “economia de mercado negro multimilionária” que lucra do tráfico, desde os contrabandistas até os fabricantes de balsas infláveis baratas, coletes salva-vidas e outros equipamentos.

No início deste ano, havia ficado mais fácil e barato do que nunca antes entrar ilegalmente na Europa por meio da Turquia, e mais pessoas estão tirando vantagem da oportunidade que o governo turco criou.

Então, por que o presidente turco Recep Tayyip Erdogan abriu a porteira? Em poucas palavras, para extrair concessões financeiras, políticas e estratégicas dos governos europeus em troca do fechamento da porteira.

O governo turco não tem tido nenhuma vergonha de pedir dinheiro durante o curso de suas negociações com autoridades da UE em semanas recentes. Em 29 de novembro a UE concordou em dar para a Turquia uma “ajuda inicial” de 3,19 bilhões de dólares e acelerar o pedido turco de se unir a UE em troca de promessas turcas de patrulhar melhor seus litorais.
Erdogan também usou a crise para gerar apoio político externo antes das eleições rápidas em 1 de novembro, essencialmente uma repetição das eleições de junho de 2015 que viu o partido AKP perder sua maioria parlamentar pela primeira vez. Embora o protocolo diplomático ocidental desaprove visitas estatais durante a época da eleição, a chanceler alemã Angela Merkel visitou Istambul para reuniões de alto nível com Erdogan e o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu apenas duas semanas antes da votação. A Comissão Europeia adiou a divulgação de um relatório que explica em detalhe a erosão do Estado Democrático de Direito, a liberdade de expressão e a independência judicial na Turquia até depois da eleição a fim de, de acordo com a Reuters, “evitar antagonizar” o presidente da Turquia.

Talvez o mais preocupante é o fato de que a Turquia está buscando compensações financeiras por sua agressão imigratória à Europa. Numa carta enviada aos líderes europeus na cúpula de imigração da UE em 23 de setembro, Davutoglu propôs a criação de uma “zona segura” e uma zona de proibição de voos sob controle dos EUA que se estendesse desde a fronteira turca até 80 km dentro do norte da Síria, onde seu governo tem apoiado uma variedade de insurgentes islâmicos sunitas contra o exército sírio e os curdos locais.

Embora o começo da intervenção militar russa na Síria em 30 de setembro tivesse dado um basta nessa fantasia por enquanto (o que talvez explique por que os turcos foram tão rápidos para puxar o gatilho e abater um avião russo que violou de leve seu espaço aéreo em 24 de novembro), pode apostar que Erdogan usará a crise imigratória para pressionar o Ocidente a apoiar suas ambições na Síria.

Se tudo isso parece familiar, é porque o falecido líder líbio Muammar Gaddafi costumava fazer o mesmo jogo, abrindo e fechando a porteira da imigração ilegal de africanos para a Europa como um meio de extrair concessões. A questão mais problemática, então e agora, não é o que fazer com os imigrantes, mas o que fazer com um governo que de forma tão cruel manipula as massas de seres humanos oprimidos como tática de pressão diplomática.
Nisso há espaço para debate. Mas o primeiro passo para se fazer algo sobre isso é chamar Erdogan do que ele é — perigoso e manipulador. Ele não é amigo dos líderes ocidentais. Contudo, depois da reunião com Erdogan em Paris na terça-feira, o presidente Obama louvou a Turquia por ser “extraordinariamente generosa no que se refere ao seu apoio aos refugiados.”

O próximo passo, em vez de subornar a Turquia com pagamentos de resgates para encerrar a imigração de refugiados da Síria e Oriente Médio para o Ocidente, o Ocidente deveria fazer o feitiço virar contra o feiticeiro — o governo turco. A perda potencial de apoio ocidental à Turquia enquanto lida com a Rússia e o ISIS deveria ser o alerta de desastre iminente, convencendo Erdogan a conter a crise de refugiados.


O apoio material ocidental à Turquia deveria ser cortado totalmente a menos que o governo turco acabe com a crise de refugiados que o próprio governo turco está fabricando e comece a trazer estabilidade para a região. É oportuno que uma antiga tragédia grega perturbe a atual realidade calamitosa criada pelos turcos.



Fonte: www.juliosevero.com

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

ALIANÇA ENTRE UCRÂNIA E ISIS

Por Sierra Rayne



Introdução especial de Steve Baldwin para os leitores brasileiros do Blog Julio Severo:Pessoas do mundo inteiro que amam a liberdade e que cresceram durante os anos da Guerra Fria aprenderam a odiar a União Soviética e com boa razão. O comunismo aniquilava toda a liberdade e o comunismo de estilo soviético estava constantemente tentando obter mais território. Mas esse paradigma mudou. Infelizmente, há muitos líderes políticos, tanto nos EUA quanto em outros países, que não compreendem que a Guerra Fria acabou e que há novas ameaças que precisam ser confrontadas e novas alianças que precisam ser formadas. Putin pode não ser um líder perfeito, mas pessoas do mundo inteiro que amam a liberdade têm muito mais em comum com o povo russo do que têm com islamistas radicais que travam guerras santas. Este artigo revela a aliança de islamistas com algumas facções na Ucrânia e sugere que os EUA formem uma aliança com a Rússia para combater a crescente ameaça de muçulmanos que fazem guerra santa.

Em fevereiro passado, o jornal The Intercept foi o primeiro canal noticioso a revelar ligações claras entre o ISIS e a Ucrânia. O artigo, escrito por Marcin Mamon, começa relatando como o líder da filial secreta do Estado Islâmico em Istambul, na Turquia, estava indo para a Ucrânia para se unir a outros membros do ISIS na luta contra os ucranianos do Leste que querem mais autonomia de Kiev e uma provável aliança política com Moscou.

Apoiadores do ISIS na Ucrânia


Há um problema imediato. Provavelmente, muitos cidadãos comuns no Ocidente não estão cientes de que o ISIS está lutando ao lado dos nacionalistas da Ucrânia. Se tivessem essa informação, a opinião pública poderia mudar drasticamente em apoio da Rússia — como de fato deveria ser. Melhor ter a Ucrânia como um Estado aliado da Rússia do que mais um membro em gestação do Califado Islâmico que está se formando em nível mundial.

Qualquer argumento de que o ISIS está, de pura bondade, ajudando os nacionalistas ucranianos a combater os separatistas apoiados pela Rússia, e que o ISIS arrumará suas malas e deixará a Ucrânia se uma vitória ocorrer, é impossível de acreditar. Se os separatistas russos perderem no Leste da Ucrânia, a Ucrânia muito provavelmente cairá sob o controle — pelo menos em parte — do ISIS, colocando o ISIS na posição de um controlador de um país que está na fronteira de vários membros da OTAN. Será que o Ocidente não apoiou o lado errado na Ucrânia? Será que os EUA não deveriam em vez disso ter apoiado a Rússia?


Kiev se tornou um importante ponto de acesso para os terroristas do ISIS entrarem na Europa Ocidental:

A Ucrânia está agora se tornando um importante ponto de parada para os irmãos, como Ruslan. Na Ucrânia, você pode comprar um passaporte e uma nova identidade. Por 15.000 dólares, um combatente recebe um novo nome e um documento legal que atesta uma cidadania ucraniana. A Ucrânia não pertence à União Europeia, mas é um caminho fácil para a imigração para o Ocidente. Os ucranianos têm poucas dificuldades para obter visto para a vizinha Polônia, onde eles podem trabalhar em locais de construção e restaurantes, preenchendo a lacuna deixada pelos milhões de poloneses que partiram em busca de trabalho na Inglaterra e Alemanha.

O que é estupendo é que Justin Raimondo no site Antiwar.com, predisse, em março deste ano, os problemas que isso provocaria: Estamos sendo avisados de que o ISIS está planejando ataques terroristas na Europa, e que forças de segurança estão ocupadas prendendo suspeitos em todo o continente — mas aí está este buraco escancarado nas defesas do Ocidente, onde “os irmãos” estão se infiltrando quietamente, sem que os meios de comunicação deem atenção. Em cooperação com grupos ultranacionalistas como o Setor de Direita, que também formou seus batalhões semiautônomos, os Islamistas da Ucrânia, brandindo passaportes ucranianos, abriram uma via de acesso ao Ocidente…

Considerando que os EUA estão mandando muita ajuda para a Ucrânia, quanto dessa ajuda acaba escoando para esses aliados do ISIS — e como essa ajuda será usada no futuro? Se os senadores republicanos John McCain e Lindsey Graham conseguirem fazer o que querem, armas dos EUA logo acabarão nas mãos desses terroristas, cuja guerra santa contra os russos inevitavelmente se estenderá para o Ocidente e atingirá as capitais da Europa.

Esse tiro pela culatra virá com fúria: os EUA estão criando seus próprios inimigos, e lhes dando as armas para fazer mal aos EUA, ao mesmo tempo em que os EUA afirmam que há uma necessidade de monitoração sobre o mundo inteiro a fim de combater o terrorismo. Os cientistas loucos que estão formulando a política externa dos EUA estão criando um exército de monstros Frankenstein — que com certeza irão atrás de seus criadores iludidos.

Preciso como um relógio, oito meses depois o Ocidente vê os ataques em Paris. Em julho, o jornal New York Times informou que três batalhões compostos exclusivamente de islâmicos estavam lutando no Leste da Ucrânia. Ao mesmo tempo, Elliot Friedland do jornal The Jewish Voice (A Voz Judaica) alertou contra os problemas que estão surgindo com a incursão islâmica na Ucrânia:

Há batalhões paramilitares islâmicos lutando ao lado das forças armadas ucranianas. Esses batalhões estão alinhados ao Estado Islâmico e facções islamistas chechenas. Se os EUA intensificarem a ajuda militar à Ucrânia, cujo exército é notoriamente corrupto, essa ajuda poderá cair nas mãos de batalhões islâmicos que estão atualmente sendo financiados por uma mistura de oligarcas ucranianos, chefes dos países islâmicos do Golfo, crimes violentos e extorsão. O site Ruskayya Blatina disse que algumas milícias que pertencem à organização terrorista ISIS começaram a lutar contra os soldados russos na Ucrânia com o apoio das autoridades americanas que deram recomendações ao governo ucraniano com relação ao Estado Islâmico… Os combatentes alinhados ao Estado Islâmico também usam a Ucrânia como um lugar barato e fácil para comprar armas, as quais podem ser contrabandeadas para o Iraque, Síria e Chechênia.

Durante os dois meses passados, as conexões entre a Ucrânia e o ISIS fizeram promoções na cadeia de comando, como ficou comprovado por uma autoridade ucraniana de patente elevada que deu seu apoio público ao ISIS. Na semana passada, armas — inclusive o sistema de mísseis antiaéreo FN-6 — das forças armadas da Ucrânia “como que por encantamento mágico” acabaram nas mãos do ISIS “tendo sido entregues ao ISIS na Síria por meio de rotas de contrabando na Turquia.”

Logo depois, o grupo hacker russo CyberBerkut afirmou que está “de posse de documentos que indicam que os funcionários do Ukroboronprom, conglomerado de indústrias bélicas estatais da Ucrânia, teve discussões com autoridades do governo do Qatar sobre a venda possível de mísseis terra-ar [os S-125-2D Pechora-2D (registrados na OTAN como SA-3 Goa)] em setembro,” armas que foram, quase que certamente, destinadas ao ISIS. De acordo com os documentos vazados, a Embaixada dos EUA em Doha aprovou a negociação.

Que bagunça. A pergunta para o Ocidente agora é: Quem eles preferem controlando o território da Ucrânia em futuro próximo, o ISIS ou a Rússia? A resposta é claramente a Rússia. Se o Ocidente quiser construir uma coalizão comum contra o Estado Islâmico, o melhor jeito pode ser remover da OTAN o Estado Islâmico da Turquia, deixar a Rússia controlar a Ucrânia e então convidar a Rússia para ser membro da OTAN (ou qualquer nova aliança que pareça apropriada) em nossa causa comum contra a guerra santa islâmica mundial.


Tradução: Júlio Severo
Fonte: Friday Fax
Divulgação: www.juliosevero.com

domingo, 22 de novembro de 2015

TERROR NA EUROPA PÕE EM XEQUE O MULTICULTURALISMO


O conceito positivo do convívio entre culturas sofreu desvios e terminou patrocinando a existência de guetos por sobre leis e Constituições
 

O acusado de ser o coordenador dos atentados em Paris era um cidadão belga chamado Abdelhamid Abaaoud. Nos ataques à casa de shows Bataclan, restaurantes e na tentativa frustrada de entrar com bombas no Stade de France, durante o jogo entre França e Alemanha, atuaram os franceses e franco-belgas Samy Amimmour, Iamael Omar Mostefai, Bilal Hadfi, Salah Abdeslam e Brahim Abdeslam.

Já houve tempo em que a nacionalidade francesa remetia apenas a nomes como Pierre, Antoine, Jean, Michel e outros. O mesmo ocorre em outros países europeus, geralmente antigas sedes de impérios que se espalharam pelo Oriente Médio e África, e, com a independência das antigas colônias, dando-se cidadania aos antigos colonizados, se tornaram destino final de migrantes desses países, já independentes.

É parte da História a miscigenação de povos, processo pelo qual se constituem culturas ricas. Um exemplo é o Brasil, colonizado pelos portugueses, abertos à mistura com índios e negros, estes trazidos pelo negócio da escravidão. Formouse uma sociedade amistosa ao estrangeiro, e esta é uma das forças do país.

Já na Europa há uma explosão de sociopatias, demonstradas pela radicalização religiosa em comunidades muçulmanas não absorvidas por sociedades como a francesa, a britânica, a belga, a holandesa, entre outras. Criaram-se guetos em que vigora apenas a Sharia, lei suprema islâmica, acima das Constituições. Sem qualquer autorização oficial, ruas são fechadas para orações coletivas, forçam-se casamentos apenas entre muçulmanos, além de outras práticas antir republicanas. No caso da França, no berço da República, uma contradição. Tudo isso e mais o tráfico de drogas e armas, protegido pelo guarda-chuva da “diversidade cultural”.

Esses guetos terminaram se constituindo em chocadeiras de serpentes que passaram a atuar como terroristas em países que não reconhecem como seus, mesmo que os levem inscritos nas certidões de nascimento.

Quilômetros de textos, incontáveis debates já trataram do tema e mais ainda tratarão. Um aspecto indiscutível é que políticas e conceitos elaborados para permitir a convivência saudável de etnias faliram. Entre eles, a ideia do “multiculturalismo”, termo simpático, colocado em lugar de destaque no altar do “politicamente correto”.

Infelizmente, este projeto de convívio entre culturas serviu para justificar a constituição de guetos em periferias como as de Paris, Londres e mesmo Bruxelas, onde há o bairro Molenbeek, por exemplo, núcleo de muçulmanos radicalizados. Bruxelas, ontem, teve de fechar metrô e comércio, por precaução.

Em nome do multiculturalismo, Estados nacionais e sociedades fingem não haver transgressões legais nessas comunidades, em que tudo é permitido sob o pretexto do politicamente correto convívio entre culturas.

E dessa forma constituíram-se banlieues nas bordas de Paris e outras cidades europeias em que as leis e a Constituição dos respectivos Estados nacionais foram relativizadas. Algo como “Complexos do Alemão” sectários, nos aspectos religioso e ideológico, e em que a ordem legal não vigora. O Estado e a sociedade têm culpa em permitir o surgimento dessas “zonas de exclusão” sob argumentos bem-intencionados. Este surto de terrorismo na Europa abala de vez o multiculturalismo.


Fonte: O GLOBO 

domingo, 25 de outubro de 2015

ESQUECEMOS QUE ASSAD É A MAIOR RAZÃO DO ÊXODO DE SÍRIOS

Por Rasheed Abou-Alsamh

 
 
Quatro anos e meio depois do início da revolta popular contra a ditadura sangrenta do presidente sírio Bashar alAssad — que começou como protestos pacíficos contra o regime —, estamos vendo a tragédia humanitária de milhares de sírios arriscando suas vidas para fugir para a Europa. Com 250 mil já mortos na Síria por todos os lados, mais de quatro milhões de refugiados fora do país e mais de dez milhões deslocados internamente, a catástrofe da matança está longe do fim.
 
 
 
Marcelo



Em vez de clamar para que se pressione o regime de Assad no sentido de negociar um cessar-fogo e uma transição para um novo governo sem ele, e assim tirar a razão principal para esse êxodo sem precedente de refugiados para a Europa, os críticos de plantão, a maioria islamofóbicos e com inveja das nações árabes ricas, resolveram apontar o dedo para os países do Golfo por supostamente não terem aceitado refugiados sírios. A Anistia Internacional publicou um mapa do Oriente Médio na internet mostrando quantos refugiados cada país da região tinha aceitado. O minúsculo Líbano tem mais de 1,1 milhão; a Turquia, quase dois milhões; a Jordânia, quase 700 mil. Nos países do Golfo, botou “zero” para cada um. A verdade é um pouco mais complicada do que esse reducionismo, bom para enraivecer a opinião publica ocidental mas que não conta a história verdadeira.

A verdade é que nenhum dos países do Golfo assinou a convenção para refugiados da ONU, de 1951, que define quem é considerado um refugiado e estabelece regras de como eles devem ser tratados e protegidos. Por isso, esses países não têm uma categoria de vistos para refugiados e nem programas oficiais para lidar com esse tipo de problema. Com certeza, eles deveriam assinar a convenção e instituir vistos para refugiados. Isso facilitaria em muito a entrada deles nos países do Golfo e ajudaria os governos a monitorá-los e garantir que suas necessidades básicas fossem atendidas.
 

O governo da Arábia Saudita reagiu lentamente às acusações, e o Ministério de Relações Exteriores finalmente divulgou uma nota oficial em inglês em seu site, no dia 13 de setembro, dizendo que o reino tinha acolhido aproximadamente 2,5 milhões de sírios desde 2011. “Para assegurar a dignidade e a segurança deles, o reino adotou uma política que não os trata como refugiados e nem os bota em campos para refugiados,” disse o governo. “A eles foi dada a liberdade de movimentação dentro do país, e àqueles que queriam ficar aqui (umas centenas de milhares) foi dado o status de residentes legais, com o direito de receber tratamento médico gratuiro, entrar no mercado de trabalho e ingressar em escolas e universidades. Isso foi incluído num decreto real de 2012, que instruiu escolas públicas a aceitaram estudantes sírios. Segundo dados oficiais, o sistema de ensino público já aceitou mais de cem mil estudantes sírios.”
 

Além disso, o governo saudita lembrou que já deu US$ 700 milhões em ajuda financeira a refugiados sírios, principalmente aqueles no campo de Zaatari, na Jordânia. Essa ajuda humanitária incluiu o fornecimento de comida, material para alojamentos, tratamento médico em clínicas sauditas nos campos de refugiados e o pagamento do aluguel de um grande número de famílias sírias no Líbano e na própria Síria.
 

O jornalista saudita Jamal Khashoggi, em uma coluna de opinião no jornal “Al-Hayat”, disse que os refugiados sírios estavam indo para a Europa em massa porque querem fincar raízes em países onde podem se tornar cidadãos e ter uma vida boa. “A Arábia Saudita pode receber mais sírios, como alguns países europeus e organizações de direitos humanos estão ingênua ou maliciosamente exigindo,” ele escreveu. “Contudo, os sírios não querem ir para a Arábia Saudita como refugiados. Eles já tiveram o suficiente ao viver em campos de refugiados... e enquanto nós não lhes dermos seu país de volta, eles vão continuar a viajar em busca de um país onde eles possam construir um futuro, e a Arábia Saudita e os países do Golfo não podem lhes oferecer esta opção.”
 

Khashoggi defende que os países do Golfo já têm trabalhadores estrangeiros demais nas suas populações, especialmente os Emirados Árabes e o Qatar, onde os estrangeiros são mais numerosos do que os nativos numa proporção de cinco por um. Ele também diz que as economias do Golfo estão tendo dificuldade em achar empregos suficientes para todos os seus próprios cidadãos que precisam trabalhar. Isso é um problema sério na Arábia Saudita, onde o governo há anos tem um programa de nacionalização do mercado de trabalho, que, contudo, encontra muita resistência do setor privado. Este prefere contratar estrangeiros com salários mais baixos e que trabalham mais.
 

Em vez de pressionar Assad a negociar um cessar-fogo permanente na Síria, seus aliados, os russos e os iranianos, estão intensificando sua ajuda militar para apoiar um regime brutal, que continua matando centenas de sírios toda semana com ataques cruéis, usando bombas de barril lançadas de helicópteros. Agora, temos o apoio russo à expansão de uma base aérea militar em Latakia, na Síria, um reduto alauita do regime. Tal apoio é crucial para que Assad continue a acreditar que ele pode permanecer no poder, mesmo que somente numa parte reduzida da antiga Síria. Enquanto isso, o Estado Islâmico continua ocupando grande parte do norte e leste do país. E são os pobres civis sírios que continuam presos entre os dois lados. É uma lástima que poderia ter sido contida já faz muito tempo.
 
 
 
Rasheed Abou-Alsamh é jornalista
 
Fonte: O Globo. Edição de 18/09/2015

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O RELÓGIO DE MERKEL





A Alemanha habita um paradoxo. É o país decisivo para a Europa sair desta crise vital, ao mesmo tempo que é o obstáculo principal à sua solução. Contudo, nenhum outro país sabe melhor do que a Alemanha que o caminho da Europa vacila entre o federalismo e a desintegração catastrófica. Quando a chanceler Merkel comemorou o seu 35.º aniversário, ainda na ex-RDA, no lado de lá do muro existia um país inimigo. Se a Guerra Fria tivesse atingido o ponto de ebulição, os primeiros combates seriam entre os alemães da NATO e os alemães do Pacto de Varsóvia. Em vez disso, a RDA acrescentou cinco estados federados à RFA. 

O grande filósofo Habermas usou, nessa altura, a expressão "patriotismo constitucional". Do que a UE precisa é de um tratado federal que permita unir os cidadãos europeus numa comunidade de destino. Merkel sabe isso, mas o seu relógio está atrasado. Ela fala de uma união política para um futuro indeterminado, quando precisamos dessa união no prazo máximo de três anos. Relvas está tão enganado como Sócrates esteve. Temos de falar com os gregos, os irlandeses, os espanhóis, os italianos... É tempo de acabar esta guerra absurda da "dívida soberana"! É preciso dizer à chanceler Merkel que urge sincronizar os nossos relógios.



Artigo de  opinião de Viriato Soromeno Marques publicado no Diário de Notícias de Portugal  









Meu Comentário: O mundo assiste atônito o desenrolar da crise mundial que desbancou inúmeros países considerados em outros tempos ricos, mas que agora amargam índices de crescimento grotescos ou quase à beira da estagnação. Rebaixados pelas agências de rating à lixo, estes entes federativos procuram desesperadamente enxugar suas dívidas por meio de medidas austeras e impopulares de aumento de impostos, diminuição de salários, demissões em massa, e outras medidas paliativas para tentar estancar o sagramento que há muito ameaça a estabilidade do bloco Europeu.O cenário de crise mundial conclama todos os países na zona do euro a se ajudar mutuamente. É hora de deixar de lado certos entraves políticos e ideológicos no afã de se buscar uma saída que possibilite o crescimento econômico sólido com base na responsabilidade fiscal e numa distribuição de renda justa que atenda com equidade a todas as classes trabalhadoras há muito aviltadas pelos governos.Isso, no entanto, não é tarefa fácil. Colocar a casa em ordem depois da bagunça generalizada envolve uma série de atitudes e compromissos sérios, que se não levados a efeito pelos dignatários destas nações, levarão a resultados ainda mais imprevisíveis a longo prazo. O fato de se receber socorro econômico em altas somas de dinheiro pode ser tão perigoso quanto dar uma calote na dívida. Ambos são armas de dois gumes e devem servir como elemento inibidor de qualquer ação pródiga de gastos bem como de intemperança no tocante a administração destes recursos. Se o euro der com os burros n'agua será por incompetência dos governos e não pela ausência de possibilidades à mão.