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sábado, 30 de julho de 2016

SOCIEDADE ENFERMA E ESTADO OMISSO

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Por Geovani F. dos Santos


Perguntamo-nos às vezes estupefatos: Que mundo é este em que vivemos? Talvez um tanto sobressaltados diante de tantos acontecimentos mórbidos, tais perguntas nos assaltem num rompante de reflexão sobre os fatos insólitos que se dão em nosso cotidiano. Na verdade, rejeitamos aceitar a feiura das coisas e o estado anômalo que se desenha porque simplesmente os consideramos surreais. É como se despertássemos de um sonho e percebêssemos de que tudo aquilo que está apenas no mundo onírico de repente é pura realidade. Relutamos num primeiro momento em aceitar as imagens disformes e a negação é maneira mais fácil de se fazer isso. Se não podemos acabar com as disformidades que nos assustam, pelo menos tentamos ignorá-las de alguma forma.  

A nossa sociedade tem sido acometida de todos os lados por terríveis espectros de maldade, os quais trouxeram uma gama de pessimismo aos cidadãos que a compõem e se sentem acuados sobremodo em seu cotidiano, premidos pela violência e incertezas, geradoras de angústia e ansiedade. Não podemos fazer vistas grossas para o problema porque ele nos salta aos olhos a todo o tempo e é impossível fugir dele, pois faz parte já de uma conjuntura há muito incrustada no tecido social e que cobra um ônus pesado de todos os indivíduos imiscuídos neste microcosmo.

O que falar quando vemos uma criança que deveria estar na escola empunhando um fuzil, furtando nas esquinas ou mesmo matando a sangue frio nos semáforos? O que dizer de um país onde grande parte de seus moradores vivem na miséria e uma minoria de privilegiados consegue ascender socialmente? Os meninos que se tornaram “aviõezinhos” são o produto da iniquidade do estado, que se nega a implementar políticas justas que arranquem da indigência este exército de rostos esquálidos e lhes dê um mínimo de dignidade.

O mesmo estado que deveria primar pelo bem-estar do cidadão e conceder aos mesmos uma chance de melhoria de sua condição, acaba por ser tornar o algoz dos que, não assistidos pelo mesmo, descambam para o crime e uma vida de delinquência. Uma vez que não se ofereceu as oportunidades necessárias, agora tem que se desdobrar para aumentar o aparato ostensivo de segurança, haja vista que a hediondez das práticas criminosas se intensifica vertiginosamente, representadas por um bando de malfeitores contumazes para os quais a lei é apenas uma abstração e nada mais. A nossa sociedade tornou-se escrava da anomia generalizada, insuflada por leis frouxas e inócuas, as quais não punem com severidade o transgressor e tampouco recuperam os que cometeram ilicitudes. O resultado deste conjunto de coisas é a explosão da criminalidade, que embasada e fiada na pusilanimidade de legislações draconianas e obsoletas tem caminho aberto para perpetuar o caos indefinidamente.


Não existe panaceia capaz de extirpar o problema brasileiro, porquanto as medidas tomadas pela nação, são apenas paliativas e  não decisivas para o enfrentamento definitivo dos processos de iniquidade social que acomete as populações mais pobres, que, por serem mais marginalizadas, acabam por se tornar os “bois de piranha” da política de cerceamento e segregação impingidas pelos figurões do poder, os quais são os guardiões do atraso coletivo e do declínio de nossas instituições, maculadas pela incúria daqueles que se dizem seus representantes. Enquanto não abrirmos os olhos ou o entendimento sobre o real problema e as suas causas, não teremos a possibilidade de reverter o cenário manchado de sangue e de malignidade social que atravanca o nosso desenvolvimento como nação minimamente civilizada.        

quarta-feira, 13 de julho de 2016

NENHUM DE NÓS É INOCENTE



Com presença de Bush em Dallas, Obama condena racismo e preconceito contra polícia


Por HENRIQUE GOMES BATISTA




Unidos na dor. Presidente Barack Obama (direita) aperta a mão de seu antecessor, George W. Bush, que beija o rosto da primeira-dama, Michelle Obama, durante evento em Dallas

Barack Obama encarou, ontem, um dos maiores desafios que devem marcar os últimos meses de seu mandato: a escalada da violência racial, com impacto na segurança de policiais e no debate sobre o controle de armas. O presidente americano disse em Dallas, Texas, durante o evento em memória dos cinco policiais mortos na semana passada numa emboscada durante uma manifestação contra o racismo da polícia, que o país “não é tão dividido como parece”, mas admitiu que o preconceito sobrevive nos EUA.

Em mais um funeral após uma tragédia — a ponto de começar a ser chamado de “consolador em chefe” pela imprensa, em um jogo de palavras com a posição de comandante em chefe das Forças Armadas do morador da Casa Branca — o presidente mostrou-se mais cauteloso que em outros discursos, tentando reduzir o radicalismo que há no país. Em tom emocionado e acompanhado do ex-presidente George W. Bush, Obama pediu a reflexão de todos os americanos, dizendo que “nenhum de nós é totalmente inocente. Nenhuma instituição está totalmente imune, e isso inclui os departamentos de polícia”.

— Eu não sou ingênuo. Tenho falado em muitos funerais durante a minha gestão. Eu abracei muitas famílias que perderam um ente querido para a violência sem sentido — disse ele, que se reuniu com parentes das vítimas nesta viagem e que, no discurso, citou um trecho da Bíblia: — Lembro de uma passagem no Evangelho de João. “Amemos não com palavras ou paz, mas com ações e verdade.”


DISCURSO EQUILIBRADO

O presidente também lamentou as mortes de Alton Sterling e Philando Castile, os homens negros mortos por policiais brancos sem necessidade aparente na semana passada na Louisiana e em Minnesota. Foi a divulgação de vídeos dos incidentes com imagens das duas mortes que reacendeu a onda de protestos por todo o país. No avião a caminho do Texas, Obama telefonou para os familiares dos dois. A violência da semana passada fez o presidente encurtar a viagem que fazia à Espanha no fim de semana. Ele também comentou os protestos em seguida espalhados pelos EUA.

— Outra comunidade partida ao meio, mais corações partidos, mais perguntas sobre o que pode prevenir outra tragédia como esta — declarou o presidente, que se reuniu por mais de uma hora com os familiares das vítimas de Dallas e citou todos nominalmente em seu discurso. — Não podemos descartar quem está nos protestos como arruaceiros ou paranoicos. Ter sua experiência negada desta forma é uma ferida, podemos ver isso.

Em busca de equilíbrio, Obama foi mesclando momentos em que condenava o racismo da sociedade americana com críticas ao movimento crescente contra policiais brancos, principais alvos do atirador de quinta-feira passada no Texas. Diferentemente do que ocorreu em outros funerais após tragédias que mobilizaram os Estados Unidos — como o massacre da boate gay Pulse na Flórida há um mês, quando foram registrados 49 mortos — Obama falou menos sobre o controle de armas, algo que divide o Congresso americano.

— Sabemos que a esmagadora maioria dos policiais faz um trabalho incrivelmente difícil e perigoso equitativa e profissionalmente. Eles são merecedores de nosso respeito, e não do nosso desprezo — afirmou o presidente. — Quando alguém pensa que todos os policiais são tendenciosos ou intolerantes, minam essas pessoas que estão agindo para nossa segurança. Exigimos da polícia muita coisa, mas exigimos muito pouco de nós mesmos.

Obama reconheceu que os assassinatos na semana passada são não apenas um ato de “violência demente”, mas de “ódio racial” e que estes episódios expõem “uma falha na democracia americana”:

— Nós nos perguntamos se as divisões podem ser superadas. Estou aqui para dizer que devemos rejeitar tal desespero. Eu estou aqui para insistir que não estamos tão divididos como parece — disse. — Sabemos que nos Estados Unidos o preconceito continua. Seja você negro ou branco, todos nós já vimos intolerância em nossa vida, em algum momento.


BUSH PEDE ‘RENOVAÇÃO DA UNIDADE’

O presidente aproveitou que estavam presentes o prefeito de Dallas, Mike Rawlings, branco, e o chefe da polícia da cidade, o negro David Brown, para mostrar como as diferenças raciais devem ser deixadas de lado, e agradeceu o trabalho conjunto dos dois após a tragédia.

— O Departamento de Polícia de Dallas está na vanguarda na melhoria das relações entre a polícia e a comunidade. Este é o país que eu conheço — disse ele, recebendo longos aplausos.

De mãos dadas, o ex-presidente George W. Bush e sua mulher, Laura, deram as mãos ao atual casal presidencial. Em seu discurso antes de Obama, Bush também defendeu a superação e mais tolerância:

— Muitas vezes nós julgamos outros grupos por seus piores exemplos, enquanto nos julgamos por nossas melhores intenções, mas acredito que temos que renovar a nossa unidade e lembrar de nossos valores, de nossos compromissos partilhados em ideais comuns — disse o ex-presidente.

— Não queremos a unidade apenas na dor, queremos a unidade da esperança e de objetivos elevados da nação.

Enquanto estava no Texas, contudo, os riscos da violência armada continuavam no país. O Capitólio dos Estados Unidos, sede do Legislativo americano, foi brevemente fechado por uma ameaça de segurança, segundo autoridades. Após receber uma notícia sobre um homem armado perto do local, a polícia prendeu duas pessoas e encontrou uma arma. Policiais saíram acompanhados de cães, à procura de um suspeito supostamente munido de uma arma, mas nada encontraram.


Fonte: O GLOBO

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Metrópoles da Violência

Por Henrique Gomes Batista

Grandes cidades contrariam tendência geral de queda no país e preocupam autoridades






WASHINGTON- Contrariando a lógica, a violência tem crescido em grandes cidades dos Estados Unidos, apesar do avanço econômico que o país vive. O fenômeno tem ocorrido em todos os cantos da nação e começa a preocupar as autoridades. Há, segundo especialistas, o risco de que isso se torne uma tendência, revertendo a redução de casos graves, como assassinatos, que vigorou nas últimas duas décadas. O próprio governo federal demonstra preocupação, conforme expôs o presidente Barack Obama na terça-feira passada.Os números impressionam. A quantidade de assassinatos no acumulado até o dia 30 de outubro deste ano em Baltimore (Maryland) cresceu 69,7% sobre período igual do ano passado. 

Em Washington, o crescimento foi de 48,9%. Até em Nova York, considerada por muitos um exemplo de segurança com a política de tolerância zero, os homicídios cresceram 5,9% neste ano. E isso não está concentrado na Costa Oeste do país. Nova Orleans, no Sul, sofre com o aumento de 29,5% dos homicídios no primeiro semestre sobre igual período de 2014. No Centro, o mesmo se repete em Milwaukee (Wisconsin, com alta de 53,1%) e Chicago (incremento de 14,6%). E na Costa Leste, Los Angeles viu o total de assassinatos subir 12,9%.

O grande questionamento entre as autoridades e especialistas é entender a causa do fenômeno e evitar que se torne uma tendência. Desde meados dos anos 90, os homicídios têm diminuído. Muitos esperam, inclusive, que o número total de assassinatos feche 2015 em patamar inferior a 2014, impactado pelos números das pequenas cidades, mas o dado geral encobre a situação dos grandes centros.


TENSÃO RACIAL E VIOLÊNCIA POLICIAL

Andrew Papachristos, professor da Universidade de Yale especializado na área criminal, lembra que a economia por si só não ajuda a explicar, sozinha, o crescimento de homicídios em algumas cidades. Ele está entre os que defendem que é necessário esperar um pouco mais antes de ver uma tendência.

— Há uma relação complicada entre a economia e o crime, que continuou a sua tendência descendente nos EUA mesmo nos anos da recente recessão. É verdade que as taxas de criminalidade são mais altas nas comunidades mais desfavorecidas, mas não é preciso dizer que as taxas de criminalidade e pobreza oscilam em sincronia — disse.

Na terça-feira, ao discursar durante o encontro da Associação Internacional dos Chefes de Polícia, o presidente americano afirmou que vai incrementar o orçamento para o setor:

— É verdade que em algumas cidades, inclusive aqui na minha Chicago, a violência armada e homicídios têm crescido. Mas o fato é que, até agora pelo menos, em todo o país os dados mostram que ainda estamos desfrutando historicamente baixas taxas de crimes violentos.

Os especialistas dizem que há historicamente quatro pontos que afetam a criminalidade nos EUA: situação econômica, tensão racial, violência policial e drogas. Entender o impacto de cada variável é fundamental para evitar que estes problemas cresçam. E, provavelmente, a resposta não é simples e não está em um ponto isolado. 

A violência policial é a que está em maior evidência, já que o país vive uma série de confrontos. A Anistia Internacional iniciou neste ano uma campanha contra o abuso fardado. De acordo com a entidade, casos de mortes de suspeitos por policiais mostraram que há, em muitos estados, um descontrole sobre o uso da força. “A Anistia Internacional se preocupa se as leis estaduais sobre o uso de força letal por policiais estão de acordo com as normas internacionais e apela a todos os estados para analisar e rever o uso de força letal”, afirma a instituição.

Richard Rosenfeld, pesquisador da Universidade do Missouri, analisou o que ocorreu em St. Louis após o caso Ferguson — quando a polícia matou o jovem negro Michael Brown, gerando uma onda de protestos. Ele detectou que é possível ver que a violência estatal gera maior número de casos de homicídios. Mas é cauteloso ao avaliar todo o cenário:

— Mesmo assim, a taxa de homicídios em St. Louis em 2014 permaneceu bem abaixo dos níveis atingidos no início de 1990 — ponderou.


DESEMPREGO MAIOR ENTRE NEGROS

A questão racial, contudo, é a que mais se relaciona com os demais temas. Em Baltimore, segundo levantamento do jornal “Baltimore Sun”, mais de 90% das vítimas de homicídio neste ano são negras, apesar de representarem 64% da população. Os brancos, que são 31% da população da cidade, eram somente 5% dos assassinados. Da mesma forma, a maior parte das vítimas policiais eram negras.
Jens Ludwig, diretor do Crime Lab da Universidade de Chicago, lembra que num estudo do laboratório entre jovens de 15 a 24 anos, a taxa de homicídios foi cerca de 18 vezes maior para negros do que para brancos. Os homens negros de todas as idades têm seis vezes mais probabilidade que os brancos de serem presos. Este grupo também é mais suscetível às novas gangues, concentradas nas grandes cidades e na venda de drogas pesadas. Neste ponto, entra um pouco da explicação econômica do fenômeno: apesar de, no geral, a taxa de desemprego nos EUA ser a mais baixa desde o governo Clinton (1993-2001), para homens negros é o dobro da registrada para brancos.


Fonte: O Globo, edição de 04 de novembro de 2015  


domingo, 25 de outubro de 2015

VIOLÊNCIA BANALIZADA

Por Luiz Fernando Janot

Assegurar o convívio pacífico nos espaços públicos vai muito além do imediatismo preconizado por aqueles que julgam ser tudo apenas um caso de polícia

 
Cavalcanti
 

 

Basta abrir o jornal ou assistir ao noticiário pelos meios virtuais de comunicação para constatar que no Brasil se mata desvairadamente, se rouba sem o menor escrúpulo e se mente com a mais absoluta desfaçatez. Reverter esse estado de coisas vem esbarrando na atitude indiferente de uma boa parte da população que parece estar pouco se lixando para o que acontece ao seu redor. Alguns chegam ao cúmulo de reverenciar bandidos, especialmente aqueles que cometem os indefectíveis crimes de colarinho branco. 
Em sociedades marcadas por grandes desigualdades, a violência apresenta características, muitas vezes, difíceis de serem compreendidas. Independentemente dessa particularidade, é preciso dizer, em alto e bom tom, que sem segurança dificilmente uma cidade conseguirá prosperar condignamente. Assegurar o convívio pacífico nos espaços públicos, respeitando as leis e os costumes vigentes, vai muito além do imediatismo preconizado por aqueles que julgam ser tudo apenas um caso de polícia.

Na verdade, qualquer modelo de segurança pública só será eficaz se for compreendido, assimilado e compartilhado solidariamente por toda a sociedade. Apesar de algumas críticas feitas ao modo de agir das polícias de Nova York, Barcelona ou Londres, não se pode negar que essas grandes cidades conseguiram acabar, efetivamente, com os graves problemas de segurança que atormentavam a vida cotidiana das suas populações. A presença ostensiva do policiamento nas ruas e a aplicação rigorosa das leis contra delitos de diferentes naturezas trouxeram, de fato, resultados extraordinários para elevar a tranquilidade nos seus espaços urbanos.

Não há a menor dúvida de que os assaltos recorrentes a pedestres e a passageiros de transportes coletivos provocam, além das perdas materiais, inúmeros problemas de ordem comportamental e psicológica. Quando tais ações adquirem um caráter generalizado, elas expõem a incapacidade das autoridades constituídas de fazer valer o ordenamento jurídico, os direitos dos cidadãos e os interesses da própria sociedade.

No Brasil, lamentavelmente, faltam recursos e planejamento integrado para reverter, no curto prazo, o quadro de violência que assola a maioria das nossas cidades. Diante desta situação, despontou o rentável negócio da segurança privada. A participação de policiais nessas empresas particulares gera uma promiscuidade difícil de ser evitada. Nessa circunstância, não faltam exemplos de policiais que agem ao arrepio da lei. Entre os seus desvios de conduta, destaca-se a formação de milícias como a sua mais nítida expressão.

As Unidades de Polícia Pacificadora, implantadas em diversas comunidades do Rio com o objetivo de libertá-las do controle dos traficantes e dos milicianos, se veem ameaçadas pela inépcia do Estado em cumprir as suas obrigações sociais para complementar e consolidar esse programa inovador de segurança pública. Ao relegar tal iniciativa ao segundo plano, o poder público ignorou a necessidade urgente de promover melhorias urbanas e habitacionais nas comunidades pacificadas. Era óbvio que a presença isolada da polícia não seria suficiente para alterar o quadro desolador verificado nesses territórios da cidade. Se não adotarem medidas abrangentes para suprir a falta de infraestrutura urbana em nossas favelas, dificilmente será alcançada a pacificação desejada.

É bom que se diga que os altos índices de criminalidade no Brasil não se devem exclusivamente à presença dos escandalosos contrastes sociais, econômicos e culturais. Devem-se, também, à degradação dos espaços públicos, à falta de policiamento nas ruas, à morosidade da Justiça na aplicação das leis, à certeza da impunidade, às péssimas condições dos presídios e dos abrigos para jovens infratores, ao despreparo da grande maioria dos policiais e à corrupção generalizada que se disseminou por todos os cantos do país. Reverter essa situação é fundamental para evitar que as nossas cidades, com o passar do tempo, incorporem certas mazelas que atualmente se encontram espalhadas pelo planeta. 

Basta abrir o jornal ou assistir ao noticiário pelos meios virtuais de comunicação para constatar que no Brasil se mata desvairadamente, se rouba sem o menor escrúpulo e se mente com a mais absoluta desfaçatez. Reverter esse estado de coisas vem esbarrando na atitude indiferente de uma boa parte da população que parece estar pouco se lixando para o que acontece ao seu redor. Alguns chegam ao cúmulo de reverenciar bandidos, especialmente aqueles que cometem os indefectíveis crimes de colarinho branco.

Em sociedades marcadas por grandes desigualdades, a violência apresenta características, muitas vezes, difíceis de serem compreendidas. Independentemente dessa particularidade, é preciso dizer, em alto e bom tom, que sem segurança dificilmente uma cidade conseguirá prosperar condignamente. Assegurar o convívio pacífico nos espaços públicos, respeitando as leis e os costumes vigentes, vai muito além do imediatismo preconizado por aqueles que julgam ser tudo apenas um caso de polícia.

Na verdade, qualquer modelo de segurança pública só será eficaz se for compreendido, assimilado e compartilhado solidariamente por toda a sociedade. Apesar de algumas críticas feitas ao modo de agir das polícias de Nova York, Barcelona ou Londres, não se pode negar que essas grandes cidades conseguiram acabar, efetivamente, com os graves problemas de segurança que atormentavam a vida cotidiana das suas populações. A presença ostensiva do policiamento nas ruas e a aplicação rigorosa das leis contra delitos de diferentes naturezas trouxeram, de fato, resultados extraordinários para elevar a tranquilidade nos seus espaços urbanos.

Não há a menor dúvida de que os assaltos recorrentes a pedestres e a passageiros de transportes coletivos provocam, além das perdas materiais, inúmeros problemas de ordem comportamental e psicológica. Quando tais ações adquirem um caráter generalizado, elas expõem a incapacidade das autoridades constituídas de fazer valer o ordenamento jurídico, os direitos dos cidadãos e os interesses da própria sociedade.

No Brasil, lamentavelmente, faltam recursos e planejamento integrado para reverter, no curto prazo, o quadro de violência que assola a maioria das nossas cidades. Diante desta situação, despontou o rentável negócio da segurança privada. A participação de policiais nessas empresas particulares gera uma promiscuidade difícil de ser evitada. Nessa circunstância, não faltam exemplos de policiais que agem ao arrepio da lei. Entre os seus desvios de conduta, destaca-se a formação de milícias como a sua mais nítida expressão.

As Unidades de Polícia Pacificadora, implantadas em diversas comunidades do Rio com o objetivo de libertá-las do controle dos traficantes e dos milicianos, se veem ameaçadas pela inépcia do Estado em cumprir as suas obrigações sociais para complementar e consolidar esse programa inovador de segurança pública. Ao relegar tal iniciativa ao segundo plano, o poder público ignorou a necessidade urgente de promover melhorias urbanas e habitacionais nas comunidades pacificadas. Era óbvio que a presença isolada da polícia não seria suficiente para alterar o quadro desolador verificado nesses territórios da cidade. Se não adotarem medidas abrangentes para suprir a falta de infraestrutura urbana em nossas favelas, dificilmente será alcançada a pacificação desejada.

É bom que se diga que os altos índices de criminalidade no Brasil não se devem exclusivamente à presença dos escandalosos contrastes sociais, econômicos e culturais. Devem-se, também, à degradação dos espaços públicos, à falta de policiamento nas ruas, à morosidade da Justiça na aplicação das leis, à certeza da impunidade, às péssimas condições dos presídios e dos abrigos para jovens infratores, ao despreparo da grande maioria dos policiais e à corrupção generalizada que se disseminou por todos os cantos do país. Reverter essa situação é fundamental para evitar que as nossas cidades, com o passar do tempo, incorporem certas mazelas que atualmente se encontram espalhadas pelo planeta.

 

 Luiz Fernando Janot é arquiteto e urbanista lfjanot@superig.com.br


JANOT, Luiz Fernando. Violência Banalizada. O Globo. Rio de Janeiro, p.19. 24 de outubro. 2015   

sábado, 17 de outubro de 2015

VIOLÊNCIA E MEDO EM ISRAEL

Por Geovani F. dos Santos

 
Em Jerusalém, o clima de violência se instalou e vem aumentando significativamente, mudando drasticamente a rotina dos moradores e de turistas que visitam os lugares turísticos da cidade santa. A crise teve início há 12 dias atrás, quando um casal de judeus foi barbaramente assassinado a tiros diante de seus filhos. Uma outra causa para o recrudescimento da violência é a acusação de que Israel estaria preparando uma mudança no acesso à mesquita de Al Aqsa, considerada o terceiro santuário mais sagrado do islamismo na velha cidade de Jerusalém.
 
Resultado de imagem para a terceira intifada

 
O governo israelense nega que vá realizar mudanças nesse aspecto, no entanto, a veiculação destes boatos já trouxe grandes problemas ao cotidiano da cidade e a segurança dos seus habitantes e turistas. Segundo a polícia israelense, cinco suspeitos foram detidos pela participação no assassinato dos dois colonos, que, de acordo com a inteligência de Israel, fariam parte de uma célula do Hamas, grupo religioso radical islâmico, pró-palestino, responsável por inúmeros atentados contra o Estado Judeu.

Nos dias que se seguiram mais quatro judeus foram assassinados à facadas e cerca de 23 palestinos, acusados de perpetrar os ataques, foram mortos em Jerusalém, Cisjordânia, faixa de Gaza e em outras cidades israelenses. Em contrapartida, o governo de Israel anunciou que vai punir com uma pena mínima de 4 anos de prisão aos que forem apanhados lançando pedras ou bombas. A medida é uma ação emergente que tem como finalidade dar tempo para uma análise mais adequada da situação e a posterior adoção de sanções mais rígidas contra os transgressores.

Em artigo publicado pelo jornal britânico The Guardian, o líder palestino Marwan Burghouti, preso na prisão israelense de Hadarim, desde 2012, quando foi acusado e condenado por cinco assassinatos, escreveu exortando o povo palestino a lutar contra as raízes da violência entre judeus e palestinos – a negação da liberdade palestina. Marwan deixou bem claro que o conflito entre os dois povos está prestes a se tornar uma guerra sem fim e, que, a nova geração de palestinos não espera mais por conversas de reconciliação, assumindo uma postura mais beligerante para atingir os seus objetivos.

Fica claro, neste artigo, que as intenções de Marwan não estão apenas voltadas para a liberdade do seu povo; mas, também, de certo modo, inculcar nos jovens palestinos o ódio declarado aos Judeus. A luta palestina não se restringe apenas a questões territoriais e ultrapassa definitivamente todas as possibilidades de uma negociação pacífica com Israel. Embora poucos se atenham a esta verdade e prefiram acreditar na mentira palestina, o fato é que está em orquestração toda uma tentativa de causar perturbação e mais violência ao cenário já tão conturbado da palestina e, que, recrudescerá cada vez mais aos fins dos tempos até que haja uma intervenção do céu para pôr fim a este palco de barbáries.