terça-feira, 16 de agosto de 2016

O INCÊNDIO DE ROMA (64 d.C)



Talvez o cristianismo não se expandisse de maneira tão bem-sucedida, caso o Império Romano não tivesse existido. Podemos dizer que o império era um tambor de gasolina à espera da faísca da fé cristã.

Os elementos unificadores do império ajudaram na expansão do evangelho. Com as estradas romanas, as viagens ficaram mais fáceis do que nunca. As pessoas falavam grego por todo o império e o forte exército romano mantinha a paz. O resultado da facilidade de locomoção foi a migração de centenas de artesãos, por algum tempo, para cidades maiores — Roma, Corinto, Atenas ou Alexandria — e depois se mudavam para outro lugar. O cristianismo encontrou um clima aberto à religiosidade. Em um movimento do tipo Nova Era, muitas pessoas começaram a abraçar as religiões orientais — a adoração a Isis, Dionisio, Mitra, Cibele e outros. Os adoradores buscavam novas crenças, mas algumas dessas religiões foram declaradas ilegais por serem suspeitas de praticar rituais ofensivos. Outras crenças foram oficialmente reconhecidas, como aconteceu com o judaísmo, que já desfrutava proteção especial desde os dias de Júlio César, embora seu monoteísmo e a revelação bíblica o colocassem à parte das outras formas de adoração.

Tirando plena vantagem da situação, os missionários cristãos viajaram por todo o império. Ao compartilhar sua mensagem, as pessoas nas sinagogas judaicas, nos assentamentos dos artesãos e nos cortiços se convertiam. Em pouco tempo, todas as cidades principais tinham igrejas, incluindo a capital imperial.

Roma, o centro do império, atraía pessoas como um ímã. Paulo quis visitar Roma (Rm 1.10-12), e, na época em que escreveu sua carta à igreja romana, vemos que ele já saudava diversos cristãos romanos pelo nome (Rm 16.3-15), talvez porque já os tivesse encontrado em suas viagens.

Paulo chegou a Roma acorrentado. O livro de Atos dos Apóstolos termina narrando que Paulo recebia convidados e os ensinava em sua casa, onde cumpria pena de prisão domiciliar, ainda que, de certa forma, não vigiada.

A tradição também diz que Pedro passou algum tempo na igreja romana. Embora não tenhamos números precisos, podemos dizer que, sob a liderança desses dois homens, a igreja se fortaleceu, recebendo tanto nobres e soldados quanto artesãos e servos.

Durante três décadas, os oficiais romanos achavam que o cristianismo era apenas uma ramificação do judaísmo — uma religião legal — e tiveram pouco interesse em perseguir a nova "seita" judaica. Muitos judeus, porém, escandalizados pela nova fé, partiram para o ataque, tentando inclusive envolver Roma no conflito.

O descaso de Roma pela situação pode ser visto no relato do historiador romano Tácito. Ele relata uma confusão entre os judeus, instigada por um certo "Chrestus", ocorrida em um dos cortiços de Roma. Tácito pode ter ouvido errado, mas parece que as pessoas estavam discutindo sobre Christos, ou seja, Cristo.

Por volta de 64 d.C, alguns oficiais romanos começaram a perceber que o cristianismo era substancialmente diferente do judaísmo. Os judeus rejeitavam o cristianismo, e cada vez mais pessoas viam o cristianismo como uma religião ilegal. A opinião pública pode ter começado a mudar em relação à fé nascente até mesmo antes do incêndio de Roma. Embora os romanos aceitassem facilmente novos deuses, o cristianismo não estava disposto a partilhar a honra com outras crenças. Quando o cristianismo desafiou o politeísmo tão profundamente arraigado de Roma, o império contra-atacou.

Em 19 de julho, ocorreu um incêndio em uma região de trabalhadores de Roma. O incêndio se prolongou por sete dias, consumindo um quarteirão após o outro dos cortiços populosos. De um total de catorze quarteirões, dez foram destruídos, e morreram muitas pessoas.

A lenda diz que o imperador romano Nero "dedilhava" um instrumento musical, enquanto Roma era destruída pelas chamas. Muitos de seus contemporâneos achavam que Nero fora o responsável pelo incêndio. Quando a cidade foi reconstruída, mediante o uso de altas somas do dinheiro público, Nero se apoderou de grande uma extensão de terra e construiu ali os Palácios Dourados. O incêndio pode ter sido a maneira rápida de renovar a paisagem urbana.

Objetivando desviar a culpa que recaíra sobre si, o imperador criou um conveniente bode expiatório: os cristãos. Eles tinham dado início ao incêndio, acusou o imperador. Como resultado, Nero jurou perseguir e matar os cristãos.

A primeira onda da perseguição romana se estendeu de um período pouco posterior ao incêndio de Roma até a morte de Nero, em 68 d.C. Sua enorme sede por sangue o levou a crucificar e queimar vários cristãos cujos corpos foram colocados ao longo das estradas romanas, iluminando-as, pois eram usados como tochas. Outros vestidos com peles de animais, eram destroçados por cães nas arenas. De acordo com a tradição, tanto Pedro quanto Paulo foram martirizados na perseguição de Nero: Paulo foi decapitado, e Pedro foi crucificado de cabeça para baixo.

Entretanto, a perseguição ocorria de maneira esporádica e localizada. Um imperador podia intensificar a perseguição por dez anos ou mais; mas um período de paz sempre se seguia, o qual era interrompido abruptamente quando um governador local resolvia castigar novamente os cristãos de sua área, sempre com o aval de Roma. Esse padrão se prolongou por 250 anos.


Tertuliano, escritor cristão do século li, disse: "O sangue dos mártires é a semente da igreja". Para surpresa geral, sempre que surgia perseguição, o número de cristãos a ser perseguido aumentava. Em sua primeira carta, Pedro encorajou os cristãos a suportar o sofrimento, confiantes na vitória derradeira e no governo divino que seria estabelecido em Cristo (lPe 5.8-11). O crescimento da igreja sob esse tipo de pressão provou, em parte, a veracidade dessas palavras.


CURTIS, A. Kenneth; LANG, J. Stephen; PETERSEN, Randy. Os 100 acontecimentos mais importantes da história do cristianismo: do incêndio de Roma ao crescimento da igreja na China. São Paulo: Editora Vida, 2003.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

PERÍODO DE AVALIAÇÃO

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“Tu esperas agora, e te farei ouvir a palavra de Deus. E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação” (1 Samuel 9.27; 1 Pedro 1.70).


Em geral no fim do ano as empresas fecham as contas e elaboram o balanço das atividades. Um resultado positivo – que se traduz em lucros – é sinônimo de prosperidade e continuidade da empresa. Se o resultado é nulo ou negativo, o responsável deverá buscar as causas disso e tomar medidas urgentes para corrigir a situação.

E em nossa vida também existem pontos em que temos de parar tudo e analisar –À luz de Deus — em que situação estamos. Os que se dizem cristãos deveriam fazer as seguintes perguntas: “ A comunhão com o Pai, o filho e o Espírito é uma realidade para mim?  “ Neste ano que passou experimentei mais do amor do meu Senhor? ”“ Fiquei mais parecido com Cristo? ” A quantos pude manifestar a graça salvadora? ”

Essas coisas são o “lucro” dos que conhecem o Senhor Jesus Cristo. São o tesouro de quem ama o Pai. É o que nos garante um “resultado positivo” na eternidade.


Se o seu padrão de medida é o sucesso do mundo, quanto dinheiro ganhou e quantos e bens adquiriu, quantas obras de caridade praticou, como ficou mais bonito, mais jovem, então é melhor parar e reavaliar. O que restará de tudo isso? O que você poderá apresentar diante de Deus? De todos os esforços que você fez este ano, o que mudou o seu coração e o levou a realidade de Deus? Os que só fazem suas avaliações em termos humanos fracassaram e estão “no vermelho”.


Fonte: Calendário Boa Semente 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O MUNDO DE SOFRIMENTOS E A ESPERANÇA FUTURA




Por Geovani F. dos Santos


O mundo é um lugar inóspito e estranho muitas vezes. Os seres humanos que vivem nele, dada a sua complexidade, ficam aturdidos com as circunstancias insólitas que em dados momentos, vez ou outra, apresentam-se sem aviso e pegam desprevenidos incautos e distraídos, vítimas fáceis dos fortuitos eventos da existência. Por mais que tentemos nos preparar, ou mesmo tentar antever o improvável, o certo é que sempre seremos vencidos pela improbabilidade ou ainda pela falsa certeza de que somos intocáveis aos infensos traiçoeiros. Todavia, o fato é que nossas deduções são incipientes para prever o possível e, ainda que tentemos ignorar, somos vítimas inconscientes de nossas próprias ilações particulares e destituídas de sobriedade. 

A Bíblia diz que o que acontece ao tolo, se dá também com sábio. Perceba que a condição de aparente vantagem ou desvantagem de um em relação ao outro, não é, por si só, consequentemente, condição para que escapem de flagelos e desgraças. Estão no orbe, e como seres existentes de carne e osso, são passíveis de sofrerem danos em todas as esferas e as consequências próprias inerentes à existência física.

Por exemplo, o sábio não pode prever o dia da sua morte, ainda que o quisesse isso não lhe é concedido. Do mesmo modo o tolo, também não poderá prever o dia em que será acometido por ela, porque isso lhe foi vedado. Talvez para lhes poupar de angústias maiores, Deus tenha ocultado dos homens a revelação do dia em que terão de deixar o mundo, seja da forma que for. Caso fosse o contrário, todos os indivíduos que vivem, viveriam premidos pelo peso de uma expectativa nauseante de que há qualquer momento poderiam receber o golpe fatal decisivo e do qual pavorosamente, estariam esperando como um laço. Alguns em razão da inevitabilidade e, por estarem cientes da data de seu passamento, acostumar-se-iam sem resistência como uma presa de gazela face ao predador voraz que a aprisionou em suas garras. Outros relutantes, não se dariam por resignados como é próprio da natureza obstinada do homem; todavia, longe se se satisfazerem com a ideia, buscariam meios para se abster de pensar no fato ou se lançariam a um completo absenteísmo em relação a vida, recolhendo-se a um melancólico estado de torpor ou ostracismo existencial.



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Na verdade, o homem deseja viver, pois, a vida lhe é algo inerente. A morte é apenas uma intrusa feia e soturna que é desprezada e odiada, ainda que alguns poetas a amassem. Se atentássemos verdadeiramente com entendimento para as coisas divinas, entenderíamos claramente que a morte, sim, é uma convidada não desejada por nenhum mortal, o qual se aferra a vida com todas as suas forças e insurge-se com a ideia de que um dia terá de atravessar o derradeiro vale em direção à eternidade. Podemos ver isso em muitos doentes terminais, que em muitos casos se digladiam com a doença que lhes consome a vitalidade e vigor da existência porque simplesmente não aceitam a cessação da vida terrena. O homem foi criado para a vida, mas o pecado roubou todo o seu encantamento transformando esse planeta num grande cemitério, e cada túmulo e lápide que se erige é um memorial bem grandiloquente desta verdade. A morte é um pregador contumaz que nos prega todos os dias e nos relembra sempre o mesmo epitáfio:


 “Tu és pó, e ao pó tornarás”.


Os efeitos destas palavras penetram no mais profundo das entranhas de nosso ser e nos fazem elucubrar sobre o efeito de um ato de desobediência que trouxe miséria e desespero a este mundo e que precipitou todos os filhos de Adão numa desgraça cujos efeitos atravessaram eras humanas e, se perpetua até o dia em que o Senhor der o basta a este sofrimento milenar por ocasião de sua vinda para pôr fim a este obnubilante cenário de pecaminosidade. Neste dia terra e céus voltarão a sorrir inebriados pela excelência da vida que será derramada sobre todos os habitantes remanescentes aos flagelos dos últimos dias. O rocio da saúde envolverá o planeta, que será sarado de sua maldade e restaurado a sua condição de paraíso para sempre. 

"E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. E eu, João, vi a santa Cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido. E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus. E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas. E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis” (Apocalipse 21:1-5).

Um dia todas as cousas serão restauradas e a vida voltará a ser uma vida de qualidade para todos os habitantes deste planeta combalido e contaminado pelo pecado de nossos primeiros pais no Éden. Isso se dará durante o reinado do Messias e todos os que nele creem serão bem-aventurados. Maranata!   

          

domingo, 7 de agosto de 2016

O ‘NOVO’ MAL-ESTAR NA GLOBALIZAÇÃO


Por Joseph E Stiglitz


Grandes segmentos da população nos países avançados não estão em melhores condições
 


Há 15 anos, escrevi um pequeno livro chamado “Globalization and its Discontents” (“O mal-estar na globalização”), em que descrevia uma crescente oposição às reformas globalizantes nos países em desenvolvimento. Parecia um mistério: prometeram às pessoas nas nações emergentes que a globalização aumentaria o bem-estar geral. Então, por que tanta gente se tornara hostil a ela?

Agora, se somaram aos opositores da globalização nos países emergentes e em desenvolvimento dezenas de milhões nos países desenvolvidos. Pesquisas de opinião, inclusive um cuidadoso levantamento feito por Stanley Greenberg e seus associados para o Instituto Roosevelt, mostram que o comércio está entre as maiores fontes de descontentamento para uma grande parcela dos americanos. Visões similares aparecem na Europa.

Como é possível que seja tão mal visto algo que nossos líderes políticos — e muitos economistas — disseram que deixaria a todos em melhores condições?

Uma resposta que se ouve de economistas neoliberais que defenderam essas políticas é que as pessoas estão em melhores condições. Elas simplesmente ignoram isso. Seu malestar é questão para psiquiatras, em vez de economistas.

Porém, dados sobre renda sugerem que são os neoliberais que podem se beneficiar de uma terapia. Grandes segmentos da população nos países avançados não estão em melhores condições: nos EUA, os 90% mais pobres enfrentam uma estagnação da renda há 25 anos. A renda média dos trabalhadores homens em horário integral é atualmente menor em termos reais (considerada a inflação) do que era há 42 anos. Na base da pirâmide, os salários reais são comparáveis aos níveis de 60 anos atrás.

Os efeitos do dissabor econômico e desestruturação que muitos americanos estão vivendo aparecem até mesmo nas estatísticas de saúde. Por exemplo, os economistas Anne Case e Angus Deaton, este vencedor do Prêmio Nobel de 2015, mostraram que a expectativa de vida no segmento de americanos brancos está caindo.

As coisas estão um pouco melhores na Europa — mas só um pouco.

O novo livro de Branko Milanovic, “Global Inequality: A New Approach for the Age of Globalization” (“Desigualdade global: Uma nova abordagem para a era da globalização”) fornece alguns insights vitais, ao mirar nos grandes vencedores e perdedores em termos de renda em duas décadas, entre 1988 e 2008. Entre os grandes vencedores está o 1% global da plutocracia mundial, mas também a classe média em novas economias emergentes. Entre os grandes perdedores — aqueles que ganharam pouco ou nada — estão aqueles na base da pirâmide e as classes média e trabalhadora dos países desenvolvidos. Globalização não é a única razão, mas é um dos motivos.

Considerando-se uma situação ideal, o mercado livre equilibraria os salários dos trabalhadores sem qualificação em todo o mundo. O comércio de bens é um substituto para o deslocamento de pessoas. Importar bens da China — que requerem um grande número de trabalhadores sem qualificação para serem produzidos — reduz a demanda por trabalhadores sem qualificação em Europa e EUA.

Esta força é tão poderosa que, se não houvesse custos de transporte, e os EUA e a Europa não tivessem outra fonte de vantagens competitivas, tais como tecnologia, no fim seria como se os trabalhadores chineses continuassem imigrando para os EUA e a Europa até que as diferenças salariais tivessem sido completamente anuladas. Não é de estranhar que os neoliberais nunca tenham divulgado esta consequência da liberalização comercial que apregoavam beneficiar a todos.

O fracasso da globalização em entregar as promessas dos políticos de plantão atingiu a confiança no “sistema”. E as ofertas generosas dos governos para resgatar os bancos responsáveis pela crise financeira de 2008, enquanto deixaram os cidadãos comuns à própria sorte, reforçaram a visão de que o fracasso não era mera questão de equívocos econômicos.

Nos EUA, os republicanos no Congresso até mesmo se opuseram à assistência daqueles diretamente atingidos pela globalização. De um modo geral, os neoliberais, aparentemente preocupados com os efeitos adversos dos incentivos, se opuseram a medidas de bem-estar social que protegeriam os perdedores.

Mas não se pode ter tudo: se a globalização é para beneficiar a maior parte da sociedade, medidas robustas de proteção social devem ser implementadas. Os escandinavos compreenderam isso há muito tempo; faz parte do contrato social que manteve a sociedade aberta à globalização e às mudanças tecnológicas. Os neoliberais de outros lugares não tiveram a mesma compreensão — e, agora, estão sendo punidos nas eleições nos EUA e na Europa.

A globalização, evidentemente, é apenas parte do que está acontecendo. A renovação tecnológica é outra parte. Mas toda essa abertura deveria ter nos tornado mais ricos, e os países avançados poderiam ter implementado medidas que garantissem que os ganhos fossem amplamente compartilhados.

Em vez disso, empurraram políticas que reestruturam os mercados elevando a desigualdade e minando a performance econômica geral. O crescimento desacelerou à medida que as regras do jogo foram reescritas para estimular interesses de bancos e corporações — os ricos e poderosos — às custas do resto.

A mensagem principal em “Globalization and its Discontents” era que o problema não era a globalização, mas como o processo estava sendo administrado. Infelizmente, a administração não mudou. Quinze anos mais tarde, o novo mal-estar trouxe essa mensagem de volta aos países desenvolvidos.


*Joseph E. Stiglitz é Prêmio Nobel de Economia, é professor da Universidade de Columbia ( EUA) e economista-chefe do Instituto Roosevelt.

Fonte: O Globo de 07/08/2016


A CONTA DOS SONHOS FICARÁ NO BRASIL


                

 Por Elio Gaspari


Daqui até o fim dos jogos, centenas de jovens subirão nos pódios, baixarão a cabeça e receberão as medalhas de ouro das Olimpíadas do Rio. Serão momentos de sonho, felicidade e alegria. Da alegria dos jovens que sorriam para o mundo durante o desfile dos atletas na festa da abertura. Nada reduzirá a beleza dessas cenas. Para os brasileiros, ficarão os momentos de sonho e a conta. Alguém ainda fará o cálculo da fatura dos custos diretos e indiretos transferidos à Viúva. Chutando para cima, poderá chegar a R$ 500 milhões.

O Maracanã, joia da privataria do governo do Rio e da Odebrecht, tornou-se um magnífico elefante branco, incomparável em noites de festa. A manutenção das instalações olímpicas custará R$ 59 milhões anuais num estado cuja rede de saúde pública entrou em colapso. A máquina de marquetagem que prometeu Olimpíadas sem dinheiro público voava nas asas dos jatinhos de Eike Batista, o homem mais rico do Brasil, candidato ao pódio mundial. Era o tempo em que os governantes torravam o dinheiro achando que o pré-sal cobriria qualquer projeto.

Nos dias em que os problemas da vila olímpica dominaram o noticiário foi frequente o argumento de que os críticos da festa carregavam o eterno “complexo de vira-lata”. Criação de Nelson Rodrigues, ele refletia “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Bola dentro, mas às vezes a questão é mais complicada. Há cães de raça, mas há também adoráveis vira-latas.
A sorte, essa trapaceira, fez com que o repórter José Maria Tomazela mostrasse uma nova dimensão da problemática canina. Ele expôs a ação de uma quadrilha de Sorocaba (SP) que mutilava e pintava filhotes de vira-latas, transformando-os em chihuahuas, e pinschers. Vendiam chihuahuas por R$ 300.


Viu-se assim outro ângulo da questão: há gente que vende chihuahuas e entrega vira-latas maquiados a pessoas que resolveram acreditar neles.


Fonte: O Globo de 07/08/2016

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

DEBATES: CATOLICISMO ROMANO



Por Geovani F. dos Santos  


Um católico não pergunta quem é a verdade; mas, sim, onde está a "verdade"? Suponho que para a maioria dos irmãos católicos, a verdade está na sua instituição e não em Cristo. Portanto, o objetivo maior de sua missão não é ganhar almas para Cristo e, sim, para a sua igreja, a qual consideram a detentora das verdades apostólicas. Para muitos, ou seja, aqueles que professam o Catolicismo, o qual um dia professei, quem não está na Igreja Católica "Apostólica" Romana está perdido, visto que, para os mesmos, somente existe salvação para quem está dentro do Catolicismo. Esse pensamento, por si só, não se sustenta, uma vez que as Escrituras revelam que em nenhum outro há salvação, senão na pessoa sacrossanta de Jesus, o qual si mesmo se deu em sacrifício vivo e agradável a Deus na cruz de gólgota. 

Quando eu desvio o foco da salvação para uma instituição e não para Cristo, estou automaticamente invalidando o próprio Evangelho que se fundamenta na morte e ressurreição do mesmo para a nossa justificação. Pedro e João declararam diante do Sinédrio Judaico: "Este Jesus é ‘a pedra que foi rejeitada por vós, os construtores, a qual foi posta como pedra angular “E, portanto, não há salvação em nenhum outro ente, pois, em todo universo não há nenhum outro Nome dado aos seres humanos pelo qual devamos ser salvos! (Atos dos apóstolos 4.11,12).

Continuando o meu arrazoamento, considere o que Pedro e João declaram: "Este Jesus é pedra” (At 4.11). Partindo deste versículo, adentro em outra questão muito amplamente aceita e difundida nos círculos católicos, ou seja, que a Igreja é edificada sobre Pedro e não sobre Cristo, como o corroboram vossos intérpretes. Essa interpretação é no mínimo temerária e qualquer exegeta honesto consigo mesmo e com a sua consciência chegará a essa ilação lógica. Analisemos o texto controverso: "Da mesma maneira Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Eu darei a ti as chaves do Reino dos céus; o que ligares na terra haverá sido ligado nos céus, e o que desligares na terra, haverá sido desligado nos céus” (Mateus 16.18).


Analisemos esta construção grega: "κἀγὼ δέ σοι λέγω ὅτι σὺ εἶ Πέτρος, καὶ ἐπὶ ταύτῃ τῇ πέτρᾳ οἰκοδομήσω μου τὴν ἐκκλησίαν, καὶ πύλαι ᾅδου οὐ κατισχύσουσιν αὐτῆς. Observe claramente que Jesus usa Πέτρος (pedra pequena), mas depois usa o substantivo πέτρᾳ (Rocha). Pedro é pedra pequena e Cristo é a Rocha como claramente se depreende do texto grego. Como a Igreja poderia ser edificada sobre uma pequena pedra e não sobre uma Rocha. Quem é o fundamento dos apóstolos sobre o qual somos edificados? Paulo vai dizer que é Cristo, vejamos: "Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal (pedra angular) desse alicerce. Nele, o [edifício inteiro], bem ajustado, cresce para ser um templo santo no Senhor" (Efésios 2,20). Paulo usa a palavra grega "θεμελίῳ" (temelio) referindo-se a Cristo como fundamento alicerce. Uma das regras da hermenêutica postula que a Bíblia se explica pela Bíblia, comparando Escritura com Escritura, "coisas espirituais com espirituais" (1 Coríntios 2.13).


*Esta postagem é fruto de debates teológicos no grupo "Católicos e Protestantes em Debate" no Facebook. Os comentários estão aqui publicados na integra.

POR QUE O RIO QUEBROU?

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Por CID BENJAMIN 


Estado deixou de arrecadar R$ 185 bilhões com ICMS, por conta de isenções a grandes empresas

O Estado do Rio está quebrado. A afirmação não é nova. O próprio governador decretou calamidade pública. Mas o Rio não quebrou por algum desastre natural. Quebrou por práticas indefensáveis e inaceitáveis de seus governantes. Cabral, Pezão e, agora, Dornelles culpam a queda do preço do petróleo, e a consequente diminuição das receitas dos royalties, pela situação. É meia verdade. E, como muitas meias verdades, esconde uma enorme mentira.

Vamos deixar de lado as denúncias das comissões que teriam sido recebidas por autoridades, encarecendo as obras públicas. Afinal, são feitas por empresários confessadamente corruptos que tentam diminuir as penas com “delações premiadas”. É preciso esperar pela manifestação final do Judiciário.

Para explicar a falência do estado, e sem acusar quem quer que seja de corrupção, vamos nos ater ao que está documentado: os favores a grandes empresas e a farra das isenções fiscais.Antes de tratarmos das concessões mais volumosas, vale a pena fazer registros que são pitorescos. Dentre as empresas agraciadas com isenções fiscais, uma é a Termas Solarium. Outra, os cabeleireiros Werner. Uma terceira, as joalherias H. Stern. Fica a dúvida sobre os critérios para as isenções.

Outro fato inusitado: em dezembro de 2015, tomando uma decisão a que não estava obrigado, Pezão resolveu pagar a conta de luz da subsidiária da Odebrecht que opera os trens da SuperVia, no valor de R$ 38 milhões. A justificativa? As tarifas de energia subiram mais do que o previsto e, por isso, a margem de lucro da empresa foi menor do que o esperado. Ora, as tarifas subiram para todos os consumidores. Por que o presente de Natal para a Odebrecht?

Mas — é forçoso reconhecer — embora isso tudo seja grotesco, não foi o que quebrou o estado.

Vamos, então, ao cerne da questão, com números do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Entre 2005 e 2015, o governo arrecadou R$ 236 bilhões com o ICMS — a sua segunda fonte de receita, logo depois dos royalties do petróleo. Mas — pasmem! — deixou de arrecadar R$ 185 bilhões com o mesmo imposto, por conta de isenções a grandes empresas. É estarrecedor.

Para cada real que arrecadou de ICMS, o estado isentou R$ 0,78.

Mesmo em 2015, já em declarado estado de crise, com os salários de servidores em atraso, hospitais fechados e a Uerj inviabilizada, foram mais de R$ 36 bilhões em renúncia do ICMS. Esse valor é superior ao que foi arrecadado com o imposto (R$ 35 bilhões). Como isso se explica?

Até mesmo as empresas que estão na dívida ativa do estado, que hoje alcança R$ 66 bilhões, foram agraciadas com favores no ICMS. Das 11 maiores devedoras, seis receberam isenções, duas têm sedes fantasmas e três faliram. Sabendo-se disso, fica claro por que o estado está quebrado.


É preciso que a população tenha ciência desse quadro para que possa avaliar as gestões do PMDB. E para que possa cobrar, não só daquele partido, mas de outros — como PT e PCdoB — que lhe deram sustentação ao longo desse tempo.


Fonte: O Globo de 04/08/2016