segunda-feira, 18 de julho de 2016

MEDITAÇÕES NO EVANGELHO

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“ Os sãos não precisam de médico, e, sim, os doentes. Não vim chamar justos, e, sim, pecadores ao arrependimento” (Lucas 5.31,32).


MEDITAÇÕES NO EVANGELHO DE MARCOS
(Favor leia Marcos 2.1-17)

Na casa em Cafarnaum, o Senhor Jesus se dá a conhecer, segundo o Salmo 103.3, como Aquele que perdoa todas as nossas iniquidades e que sara todas as nossas enfermidades. As duas declarações deste Salmo são por Ele cumpridas na nova vida do paralítico como um testemunho para todos. Sim, Aquele que perdoa os pecados – uma obra espiritual – e que dá prova material dessa obra, também curando a enfermidade, só pode ser o Senhor (Jeová), o Deus de Israel.

Os publicanos arrecadavam impostos para os romanos, atividade que lhes proporcionava riqueza (pois lhes tocava uma parte do arrecadado), mas também o desprezo da parte de seus compatriotas. O Senhor, porém, ao chamar Levi e ao aceitar o seu convite para comer em sua casa, mostra que não despreza nem rejeita ninguém.  Pelo contrário, Ele veio buscar os pecadores notórios, aqueles que não ocultam o seu estado. (I Timóteo 1.15).

Ele se assenta à mesa com eles, fazendo-Se Amigo deles. Desde a queda, o homem tem medo de Deus e foge D’Ele por estar sua consciência “pesada”. Assim, o primeiro esforço de Deus, antes de salvar a Sua criatura, foi aproximar-Se dela e ganhar a sua confiança. Isso é o que o Senhor Jesus fez, ao humilhar-Se a ponto de identificar-Se com o homem miserável a fim de fazê-lo compreender que Deus o ama.



Fonte: Calendário Boa Semente

quinta-feira, 14 de julho de 2016

IMAGENS BRUXULEANTES

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Por Geovani F. dos Santos



O mundo tornou-se um lugar perigoso demais para se viver é a constatação. Em toda a parte, o que se percebe é uma névoa espessa de terror que se intensifica e gera ainda mais insegurança à medida que o tempo passa. O que esperar do futuro diante de tantas expectativas soturnas? O que dizer as nossas crianças sobre o atual cenário que se desenha e cuja dinâmica parece longe de parar seu desenvolvimento funesto?

Esta e outras perguntas me assaltam a mente à medida que constato que vivemos numa espiral crescente de acontecimentos terrificantes que deixam os homens atônitos e roubam das pessoas a tranquilidade existencial e toda a perspectiva otimista de melhorias da realidade presente.

Em todas as direções o que se vê são as imagens coletivas de indivíduos atordoados que não mais conseguem dissociar de suas vidas as projeções do mal que assume inúmeras facetas numa sociedade eivada de malignidade e cujas mentalidades, entorpecidas pela normose do cotidiano, banalizam o ilícito e não mais se melindram  com a rudeza dos acontecimentos, haja vista estarem completamente anestesiados pela recorrente repetição das cenas, que, exatamente por serem repetidas reiteradas vezes, normatizaram-se em corações e mentes endurecidos.

O corpo de um homem caído ao chão crivado de balas não choca mais do que a imagem de um cachorro abatido na beira de um asfalto depois de um atropelamento. Na verdade, é como se houvesse um deleite sinistro em olhar essa cena. O senso ou sentido de humanidade se esmaece ou se embrutece na mesma medida em que o amor se esfria nos corações. A vida humana se tornou tão insignificante que a dignidade da mesma é violada em nome das mais perniciosas atitudes de sadismo. O homem transformou-se no lobo de si próprio e a consequência dessa metamorfose é o surgimento de uma geração psicopatizada, refém de toda a escravidão e submissa à mentoração de Satanás e suas sugestões macabras. 

A humanidade no mesmo compasso que rejeita ao Evangelho da Graça e chafurda na lama do pecado como uma porca no espojadouro de sua imundícia, traz sobre si as consequências de uma vida divorciada dos parâmetros da Palavra de Deus. O resultado deste comportamento se revela no quadro de decadência de nossa juventude, seguindo sem destino, desnorteados e entregues à toda sorte de desvios e ilicitudes, os quais como um feitor perverso, laçam-nos numa masmorra de torturas, que suga toda a sua vitalidade, conduzindo-os por fim às escuras recamaras da morte eterna. 

Por mais bruxuleantes que possam parecer estas imagens, são a mais pura verdade. Verdade que não pode ser ignorada por esta geração e, tampouco, pela futura. Se é que teremos uma futura geração. Os homens estão tombando como vultos desvalidos e sem Deus não conseguirão chegar à próxima curva da estrada. Rejeitam todos os apelos apresentados e desdenham daqueles que lhes tentam alertar. O resultado de tal contumácia e obstinação será um fim inglório em uma realidade inglória longe para sempre dos propósitos de Deus.              

quarta-feira, 13 de julho de 2016

NOTICIAS NADA ALVISSAREIRAS




Por Geovani F. dos Santos

As notícias que chegam todos os dias aos lares de milhões de brasileiros não são de bom augúrio. Enquanto os governantes se digladiam pela sucessão do famigerado “ex-presidente da Câmara dos Deputados -  Eduardo Cunha –  envolvido em denúncias de desvio e lavagem de dinheiro e, inclusive, investigado pela Operação Lava-jato da Polícia Federal, o país segue claudicante amargando altos índices de desemprego e caos social em diversas áreas.

Somam-se a isso, o suspense da saída ou não de Dilma Rousseff   definitivamente do poder, o que tem acirrado ainda mais os ânimos políticos com todas as suas respectivas repercussões negativas ao cenário nacional. O país parece viver em um transe hipnótico profundo, uma espécie de torpor generalizado. A sensação de paralisia é perceptível no olhar de muitos desesperançados cidadãos, os quais há muito perderam a credibilidade nos governantes

Milhões são escoados pelo ralo da corrupção de modo infrene e, neste ínterim, a população pobre é postergada a uma condição cada vez maior de penúria e descaso, tendo que encarar o péssimo atendimento do setor público, quase falido, e também a incúria dos que deveriam representá-los e lhes conceder dignidade de atendimento.

Somos todos reféns de marginais que ascenderam ao poder pela anuência do voto e, uma vez instalados no poder, aproveitam-se do mesmo para engendrar suas maquinações malévolas e, amealhar, sem quaisquer escrúpulos, patrimônios que jamais conseguiriam em uma vida inteira trabalhando honestamente de sol a sol. Estes ladravazes rapaces, insuflam ainda maior dano ao erário público e perpetuam o atraso de nossas instituições, infringindo leis e penalizando os que mais carecem de cuidados em nossa sociedade. 

Estes “abutres” aviltantes precisam ser defenestrados o mais rápido possível de nossas vidas, se é que queremos, de fato, que o nosso país alcance patamares melhores no futuro. É necessário que haja um amadurecimento político de nosso povo e, sobretudo, uma profunda conscientização social que se atenha à realidade inconteste de que o voto tem consequências, e consequências funestas a curto e a longo prazos. Já é hora de dizermos não aos políticos oportunistas que, se valendo de táticas demagógicas e assistencialistas, são responsáveis pela manutenção do status quo de miséria e atraso de nossa pátria. Despertemo-nos e sejamos diligentes nesta tarefa. Não reelejamos estes que usam o deboche e o desrespeito contra o nosso povo, expulsemo-los e demonstremos que eles são irrelevantes ao nosso Brasil.  

NENHUM DE NÓS É INOCENTE



Com presença de Bush em Dallas, Obama condena racismo e preconceito contra polícia


Por HENRIQUE GOMES BATISTA




Unidos na dor. Presidente Barack Obama (direita) aperta a mão de seu antecessor, George W. Bush, que beija o rosto da primeira-dama, Michelle Obama, durante evento em Dallas

Barack Obama encarou, ontem, um dos maiores desafios que devem marcar os últimos meses de seu mandato: a escalada da violência racial, com impacto na segurança de policiais e no debate sobre o controle de armas. O presidente americano disse em Dallas, Texas, durante o evento em memória dos cinco policiais mortos na semana passada numa emboscada durante uma manifestação contra o racismo da polícia, que o país “não é tão dividido como parece”, mas admitiu que o preconceito sobrevive nos EUA.

Em mais um funeral após uma tragédia — a ponto de começar a ser chamado de “consolador em chefe” pela imprensa, em um jogo de palavras com a posição de comandante em chefe das Forças Armadas do morador da Casa Branca — o presidente mostrou-se mais cauteloso que em outros discursos, tentando reduzir o radicalismo que há no país. Em tom emocionado e acompanhado do ex-presidente George W. Bush, Obama pediu a reflexão de todos os americanos, dizendo que “nenhum de nós é totalmente inocente. Nenhuma instituição está totalmente imune, e isso inclui os departamentos de polícia”.

— Eu não sou ingênuo. Tenho falado em muitos funerais durante a minha gestão. Eu abracei muitas famílias que perderam um ente querido para a violência sem sentido — disse ele, que se reuniu com parentes das vítimas nesta viagem e que, no discurso, citou um trecho da Bíblia: — Lembro de uma passagem no Evangelho de João. “Amemos não com palavras ou paz, mas com ações e verdade.”


DISCURSO EQUILIBRADO

O presidente também lamentou as mortes de Alton Sterling e Philando Castile, os homens negros mortos por policiais brancos sem necessidade aparente na semana passada na Louisiana e em Minnesota. Foi a divulgação de vídeos dos incidentes com imagens das duas mortes que reacendeu a onda de protestos por todo o país. No avião a caminho do Texas, Obama telefonou para os familiares dos dois. A violência da semana passada fez o presidente encurtar a viagem que fazia à Espanha no fim de semana. Ele também comentou os protestos em seguida espalhados pelos EUA.

— Outra comunidade partida ao meio, mais corações partidos, mais perguntas sobre o que pode prevenir outra tragédia como esta — declarou o presidente, que se reuniu por mais de uma hora com os familiares das vítimas de Dallas e citou todos nominalmente em seu discurso. — Não podemos descartar quem está nos protestos como arruaceiros ou paranoicos. Ter sua experiência negada desta forma é uma ferida, podemos ver isso.

Em busca de equilíbrio, Obama foi mesclando momentos em que condenava o racismo da sociedade americana com críticas ao movimento crescente contra policiais brancos, principais alvos do atirador de quinta-feira passada no Texas. Diferentemente do que ocorreu em outros funerais após tragédias que mobilizaram os Estados Unidos — como o massacre da boate gay Pulse na Flórida há um mês, quando foram registrados 49 mortos — Obama falou menos sobre o controle de armas, algo que divide o Congresso americano.

— Sabemos que a esmagadora maioria dos policiais faz um trabalho incrivelmente difícil e perigoso equitativa e profissionalmente. Eles são merecedores de nosso respeito, e não do nosso desprezo — afirmou o presidente. — Quando alguém pensa que todos os policiais são tendenciosos ou intolerantes, minam essas pessoas que estão agindo para nossa segurança. Exigimos da polícia muita coisa, mas exigimos muito pouco de nós mesmos.

Obama reconheceu que os assassinatos na semana passada são não apenas um ato de “violência demente”, mas de “ódio racial” e que estes episódios expõem “uma falha na democracia americana”:

— Nós nos perguntamos se as divisões podem ser superadas. Estou aqui para dizer que devemos rejeitar tal desespero. Eu estou aqui para insistir que não estamos tão divididos como parece — disse. — Sabemos que nos Estados Unidos o preconceito continua. Seja você negro ou branco, todos nós já vimos intolerância em nossa vida, em algum momento.


BUSH PEDE ‘RENOVAÇÃO DA UNIDADE’

O presidente aproveitou que estavam presentes o prefeito de Dallas, Mike Rawlings, branco, e o chefe da polícia da cidade, o negro David Brown, para mostrar como as diferenças raciais devem ser deixadas de lado, e agradeceu o trabalho conjunto dos dois após a tragédia.

— O Departamento de Polícia de Dallas está na vanguarda na melhoria das relações entre a polícia e a comunidade. Este é o país que eu conheço — disse ele, recebendo longos aplausos.

De mãos dadas, o ex-presidente George W. Bush e sua mulher, Laura, deram as mãos ao atual casal presidencial. Em seu discurso antes de Obama, Bush também defendeu a superação e mais tolerância:

— Muitas vezes nós julgamos outros grupos por seus piores exemplos, enquanto nos julgamos por nossas melhores intenções, mas acredito que temos que renovar a nossa unidade e lembrar de nossos valores, de nossos compromissos partilhados em ideais comuns — disse o ex-presidente.

— Não queremos a unidade apenas na dor, queremos a unidade da esperança e de objetivos elevados da nação.

Enquanto estava no Texas, contudo, os riscos da violência armada continuavam no país. O Capitólio dos Estados Unidos, sede do Legislativo americano, foi brevemente fechado por uma ameaça de segurança, segundo autoridades. Após receber uma notícia sobre um homem armado perto do local, a polícia prendeu duas pessoas e encontrou uma arma. Policiais saíram acompanhados de cães, à procura de um suspeito supostamente munido de uma arma, mas nada encontraram.


Fonte: O GLOBO

OITO MESES APÓS CHACINA


 
CAIO BARRETTO BRISO



“Tem dias em que acordo deprimida, sem querer levantar (...) De vez em quando, me sinto um pouco melhor. Mas estou presa. Nunca mais serei feliz” Monica Correa Mãe de Cleiton “É a maior dor do mundo. Eu e meu filho trocávamos mensagens o dia inteiro. Ele me perguntava onde eu estava, se precisava de alguma coisa...” Adriana Pires da Silva Mãe de Carlos Eduardo
 




Uma rajada de tiros ecoa no Morro da Lagartixa. Monica se arrepia. A noite foi maldormida por causa dos disparos madrugada adentro. Lágrimas escorrem pelos olhos, já cansados de chorar, e molham o rosto sem rugas. É impossível não lembrar de Cleiton, o mais velho de cinco filhos, morto com 11 tiros de fuzil a poucos metros de casa. Oito meses depois da Chacina de Costa Barros, a dor imensurável golpeia sem dó o coração materno.

— Cada vez que escuto um tiro penso no que Cleiton sentiu quando entrou a primeira bala. Não consigo parar de pensar nisso. Nenhuma mãe suporta ver um arranhão em seu filho, imagine vê-lo transformado em picadinho. Meu filho foi enterrado nu, porque não era mais um corpo que pudesse ser vestido — desabafa Monica Correa, antes de outra rajada soar em Costa Barros.

A canção da guerra toca todos os dias no bairro da Zona Norte que virou sinônimo de violência. Para as mães dos cinco amigos que morreram juntos, em 28 de novembro do ano passado, tiros trazem recordações: do último beijo, do adeus que não houve, da poça de sangue sob o Palio branco no qual os jovens saíram para lanchar. Cento e onze tiros mataram Cleiton, Wilton, Carlos Eduardo, Wesley e Roberto. Ninguém sofre igual a quem pôs os meninos no mundo. Na semana passada, Joselita de Souza, mãe de Betinho, foi internada em São João de Meriti com pneumonia e anemia. Não queria mais se alimentar nem sair da cama, muito menos de casa. Segundo parentes, a mulher que, antes da chacina, vivia sorrindo, morreu de tristeza. Tinha 44 anos.


DA JANELA, A CENA DO CRIME


A morte de Joselita expôs o drama das mães da chacina, que ganhou repercussão internacional. Monica mora de favor na antiga sede da Associação de Moradores do Morro da Lagartixa. Divide um espaço de dois cômodos com o marido e os quatro filhos. Há oito dias eles não têm água em casa, e é preciso contar com a solidariedade de uma vizinha para tomar banho e matar a sede. A pequena residência tem apenas uma janela. Vê-se a linha do trem, a velha estação de Costa Barros, um muro repleto de citações bíblicas. Ao longe, o temido Complexo do Chapadão encobre o horizonte. Morando há oito meses no local, desde que houve a tragédia, ela evita a janela para não sofrer. Dela, é possível avistar o ponto exato em que os cinco amigos foram assassinados.

— Tem dias em que acordo deprimida, sem querer levantar. Em outros acordo revoltada, pensando em fazer justiça com as próprias mãos. De vez em quando me sinto um pouco melhor. Mas estou presa. Nunca mais serei feliz — afirma.

Nos primeiros meses após a tragédia, Monica recebia até cinco cestas básicas por dia. Como não precisava de tanta comida, dividia com amigos. ONGs ofereciam apoio e prometiam lutar por justiça ao lado das mães. Segundo ela, o próprio governador Luiz Fernando Pezão prometeu aos familiares das vítimas, em encontro no Palácio Guanabara, que o estado lhes daria todo o apoio necessário, inclusive pagamento de aluguel social para quem desejasse sair de Costa Barros. Com o passar do tempo, as promessas não se cumpriram, as ONGs se afastaram e até conhecidos da comunidade são capazes de condená-la pela tristeza que não termina.

— Quando ando com essa cara triste pelo morro escuto as piores coisas que uma mãe pode ouvir. Dizem que vai doer menos se eu me conformar, que não sou a única no mundo a ter perdido um filho, que eu quero ficar famosa. Já me falaram até que não tenho motivo para sofrer porque fiquei rica com a indenização do estado. O governo não nos deu dinheiro algum, e a verdade é que não quero um centavo. Só quero sair daqui — desabafa. — Preciso salvar meus outros filhos.

A depressão de Monica é tão grave que ela sequer conseguia trabalhar até esta semana. Na segunda-feira, deu um grande passo: fez faxina pela primeira vez desde a chacina, em uma casa na Barra. Sentiu-se perdida no Terminal Alvorada, onde milhares de pessoas esperavam ônibus, todas alheias à sua dor. O que a mantém viva são os quatro filhos e a certeza, cada vez mais frágil, de que a justiça será feita. Sentimento parecido com o de Adriana Pires da Silva, de 36 anos, mãe de Carlos Eduardo, o Dudu. Ele era seu filho mais velho. Tinha 16 anos, mas agia como homem. Quando a mãe saía para trabalhar, o menino fazia o jantar e cuidava da pequena Maria Eduarda, de 6 anos. De vez em quando, chamava-o de “pai”.

Adriana repete para si uma pergunta perturbadora: por que 111 tiros? Acredita que os quatro policiais acusados pelos disparos queriam explodir o carro para ocultar provas. O corpo de Dudu foi dilacerado — dez balas atravessaram suas costas e uma, a nuca. No poço sem fundo da depressão que a consumiu, tentou suicídio duas vezes. A primeira, na véspera do Natal; a segunda, pouco depois do réveillon. Seu advogado, João Tancredo, pediu ao Tribunal de Justiça que obrigasse o estado a custear atendimento psicológico para mãe e filha. Em primeira instância, o pedido foi negado — a juíza Cristiana Santos considerou que a solicitação só poderia ser atendida após a condenação dos PMs Antonio Carlos Gonçalves Filho, Thiago Resende Viana Barbosa, Marcio Darcy Alves dos Santos e Fabio Pizza Oliveira da Silva, presos em flagrante por homicídio doloso e fraude processual, mas beneficiados por um habeas corpus que lhes permitiu responder em liberdade.

MEDO DE SAIR DE CASA


Em segunda instância, a 5ª Câmara Cível autorizou o pagamento, com multa diária de R$ 100 ao estado em caso de descumprimento. Já se passaram seis semanas e, até agora, o estado nada fez. Adriana estaria desamparada não fosse o escritório de advocacia de Tancredo, que tem arcado com psicólogo e psiquiatra.

— Éa maior dor do mundo. Eu e meu filho trocávamos mensagens o dia inteiro. Ele me perguntava onde eu estava, se precisava de alguma coisa, dava notícias da irmãzinha, dizia para eu não me preocupar, que estava tudo bem — lembra Adriana. — Agora estou melhorando. Mas morro de medo de sair na rua, sinto crise de pânico. Tenho medo de policiais me matarem.

Márcia Ferreira Oliveira, mãe de Wilton, que herdou o Palio branco do pai, só consegue dormir à base de remédios. Seu filho estava terminando um curso técnico de administração e contabilidade, morreu um mês antes de pegar o diploma. Assim como as outras, ela não recebe qualquer atendimento do estado — o secretário de Assistência Social, Paulo Melo, não foi encontrado para responder por que as famílias estão tão desamparadas.

Mãe de Wesley, a cozinheira Rosileia de Andrade chora todos os dias.

— Às vezes, ela volta do trabalho chorando o caminho todo. Era o único filho. Só tinha ele — conta Rosiel Pereira, padrasto de Wilton.

No fim da entrevista de Monica, uma terceira rajada de tiros assusta os moradores do Morro da Lagartixa, onde os cinco amigos moravam. Seu filho de 9 anos sai do escuro do quarto. — Mãe, sonhei com tiros. Ela responde: — Não foi sonho, filho. Foi real.


Fonte: O GLOBO

sábado, 9 de julho de 2016

JESUS, O HOMEM QUE ORAVA

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Por Geovani F. dos Santos


O hábito de oração deve ser uma constante em nossas vidas. O dever de orar sempre e nunca desvanecer precisa ser observado como regra precípua, pois dela depende todo o sucesso de nossa jornada neste mundo. Jesus deixou evidente em seu ministério terreno ter sido um homem que orava. A sua vida é o maior exemplo de que a comunhão com o Pai celestial carece de ser constante e ininterrupta durante toda nossa existência.

Como Jesus orava, também precisamos orar. Quanto mais orarmos e estivermos dispostos a fazê-lo, mais e mais graça e disposição receberemos para enfrentar as circunstâncias e adversidades do cotidiano, inteiramente confiados naquele que disse que jamais nos desampararia.

No evangelho de Marcos, encontramos o seguinte relato: “Tendo-se se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto e ali orava” (Mc 1.35).  O texto explicita com clareza que Jesus buscava lugares ermos para orar e ter momentos devocionais com o Pai. Era necessário que assim o fizesse, a grandiosidade do seu mistério e da tarefa que estava em suas mãos – de   remir a humanidade perdida – eram sobremodo urgentíssimas e, portanto, exigiam dele um maior senso de prontidão e revestimento divinos. Como homem ele precisava disso e, como homem, manifestou esse comportamento modelar até o derradeiro momento na cruz, quando numa súplica, rendeu seu espírito ao Pai. “Pai! Em tuas mãos entrego o meu espírito” (Πάτερ, εἰς χεῖράς σου παρατίθεμαι τὸ πνεῦμά μου).  E havendo dito isto, expirou” (Lc 23.46). 

As últimas palavras de Cristo na cruz, portanto, são uma entrega de seu espírito aos cuidados do pai. Como viveu, morreu, orando intensamente. Russel Normam Champlin declara:

“Foi como homem que ele morreu e entregou essa alma a Deus, conforme é dever de todo homem. As suas últimas palavras, proferidas como homem mortal, afirmaram a sua fé na imortalidade, e essa fé é a chave de toda a esperança humana”. 


As derradeiras palavras de Cristo revelaram a sua profunda dependência do Pai, bem como um profundo senso de que tudo está sob seu controle.

terça-feira, 5 de julho de 2016

O MAIOR 'OUVIDO' DA TERRA

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No fim de semana passado, operários chineses instalaram o último dos 4.450 painéis triangulares que compõem o “prato” da antena do que será o maior radiotelescópio do mundo, em construção desde o fim de 2008 na província de Guizhou, no Sudoeste do país. Batizado FAST (sigla em inglês para “telescópio esférico de abertura com 500 metros”), o equipamento terá, como o próprio nome indica, 500 metros de diâmetro, superando em cerca de 200 metros o famoso observatório radioastronômico de Arecibo, em Porto Rico, que desde os anos 1960 liderava a lista entre as instalações do tipo. Com isso, a antena do FAST vai ter uma área coletora quase três vezes maior que o de Arecibo, aproximadamente 196 mil metros quadrados contra 70 mil, o que vai se traduzir em maior sensibilidade e resolução.

Com capacidades e instrumentos também mais avançados que os de Arecibo, o FAST vai abrir uma nova janela para o estudo do Universo. Entre suas atribuições quando começar a operar, a partir de setembro, estará “escutar” as tênues emissões das gigantescas nuvens de hidrogênio neutro que permeiam a Via Láctea, permitindo melhor mapear a estrutura e formato de nossa galáxia. O radiotelescópio também deverá detectar milhares de novos pulsares — estrelas superdensas de nêutrons que giram rapidamente e emitem sinais periódicos de rádio, como um “farol” espacial — dentro da Via Láctea, e encontrar os primeiros exemplares destes estranhos objetos, possíveis fontes de ondas gravitacionais (distorções no espaço-tempo previstas por Albert Einstein há mais de cem anos e cuja existência foi apenas recentemente confirmada) fora de nossa galáxia, entre outros feitos.

— Toda vez que se inaugura um instrumento com tamanhas capacidades como o FAST, sempre esperamos descobrir coisas novas sobre o Universo, muitas vezes algumas que nem imaginávamos que existissem — destaca Gustavo Rojas, astrofísico da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no interior de São Paulo. — Embora também tenha suas limitações, o FAST será muito mais versátil que o observatório de Arecibo, com uma qualidade de imagem bem melhor numa faixa de frequências maior, o que vai permitir que aborde questões relevantes da astronomia e da cosmologia.

Mas talvez o que mais chame a atenção do público em geral é justamente a possibilidade de o FAST ajudar na busca por vida extraterrestre. Além de caracterizar nuvens de material no espaço à procura de moléculas orgânicas pré-bióticas, o radiotelescópio, como o maior “ouvido” da Terra, poderá captar eventuais sinais emitidos por uma civilização alienígena ou mesmo ser usado para enviar mensagens da Humanidade para o Universo na esperança de que ela seja recebida, e respondida, pelos ETs.

— O telescópio é de grande significado para que os humanos explorem o Universo e civilizações extraterrestres — comenta Liu Cixin, escritor chinês de ficção científica cuja trilogia “O problema dos três corpos” aborda justamente um fictício projeto militar secreto realizado durante a Revolução Cultural Chinesa que envia sinais de rádio para o espaço na tentativa de estabelecer contato com extraterrestres e foi vencedora no ano passado do Prêmio Hugo, um dos mais importantes no mundo neste campo da literatura. — Espero que os cientistas possam fazer descobertas que marquem época com o FAST.

Para Rojas, embora com possibilidades de sucesso extremamente remotas e altamente especulativa, a busca por inteligência extraterrestre — conhecida como Seti na sua sigla em inglês — de fato pode ajudar a angariar apoio popular, e recursos governamentais, a projetos astronômicos caros como o FAST, cuja construção foi orçada em US$ 180 milhões (quase R$ 600 milhões). Segundo ele, se o novo radiotelescópio for usado para enviar um sinal omnidirecional, isto é, para todas as direções no céu, com uma potência de 1 gigawatt, cerca de mil vezes mais forte que uma transmissão de TV comum, ele atingiria uma esfera na nossa vizinhança cósmica com um diâmetro de 30 anos-luz, um volume que contém milhares de estrelas e possíveis planetas habitáveis. — Tem um monte de “ses” aí, mas é uma possibilidade — diz.

Possibilidade que também empolga os cientistas chineses:

— O potencial do FAST em descobrir uma civilização alienígena será de cinco a dez vezes maior do que o dos equipamentos atuais, já que ele pode escutar mais longe — aponta Peng Bo, diretor do Laboratório de Tecnologia em Radioastronomia do Observatório Astronômico Nacional da China.

Enquanto os pesquisadores chineses comemoram a conclusão próxima do FAST, porém, muitos cientistas ocidentais estão preocupados com o futuro de Arecibo. Isso porque, no fim de maio passado, a Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF, na sigla em inglês), principal mantenedora do observatório, deu início a uma série de discussões sobre o que fazer com ele com cinco cenários, entre os quais interromper suas operações ou mesmo desmontá-lo diante de crescentes apertos orçamentários e a necessidade de alocar recursos em outros projetos.


Fonte: O GLOBO