domingo, 25 de outubro de 2015

VIOLÊNCIA BANALIZADA

Por Luiz Fernando Janot

Assegurar o convívio pacífico nos espaços públicos vai muito além do imediatismo preconizado por aqueles que julgam ser tudo apenas um caso de polícia

 
Cavalcanti
 

 

Basta abrir o jornal ou assistir ao noticiário pelos meios virtuais de comunicação para constatar que no Brasil se mata desvairadamente, se rouba sem o menor escrúpulo e se mente com a mais absoluta desfaçatez. Reverter esse estado de coisas vem esbarrando na atitude indiferente de uma boa parte da população que parece estar pouco se lixando para o que acontece ao seu redor. Alguns chegam ao cúmulo de reverenciar bandidos, especialmente aqueles que cometem os indefectíveis crimes de colarinho branco. 
Em sociedades marcadas por grandes desigualdades, a violência apresenta características, muitas vezes, difíceis de serem compreendidas. Independentemente dessa particularidade, é preciso dizer, em alto e bom tom, que sem segurança dificilmente uma cidade conseguirá prosperar condignamente. Assegurar o convívio pacífico nos espaços públicos, respeitando as leis e os costumes vigentes, vai muito além do imediatismo preconizado por aqueles que julgam ser tudo apenas um caso de polícia.

Na verdade, qualquer modelo de segurança pública só será eficaz se for compreendido, assimilado e compartilhado solidariamente por toda a sociedade. Apesar de algumas críticas feitas ao modo de agir das polícias de Nova York, Barcelona ou Londres, não se pode negar que essas grandes cidades conseguiram acabar, efetivamente, com os graves problemas de segurança que atormentavam a vida cotidiana das suas populações. A presença ostensiva do policiamento nas ruas e a aplicação rigorosa das leis contra delitos de diferentes naturezas trouxeram, de fato, resultados extraordinários para elevar a tranquilidade nos seus espaços urbanos.

Não há a menor dúvida de que os assaltos recorrentes a pedestres e a passageiros de transportes coletivos provocam, além das perdas materiais, inúmeros problemas de ordem comportamental e psicológica. Quando tais ações adquirem um caráter generalizado, elas expõem a incapacidade das autoridades constituídas de fazer valer o ordenamento jurídico, os direitos dos cidadãos e os interesses da própria sociedade.

No Brasil, lamentavelmente, faltam recursos e planejamento integrado para reverter, no curto prazo, o quadro de violência que assola a maioria das nossas cidades. Diante desta situação, despontou o rentável negócio da segurança privada. A participação de policiais nessas empresas particulares gera uma promiscuidade difícil de ser evitada. Nessa circunstância, não faltam exemplos de policiais que agem ao arrepio da lei. Entre os seus desvios de conduta, destaca-se a formação de milícias como a sua mais nítida expressão.

As Unidades de Polícia Pacificadora, implantadas em diversas comunidades do Rio com o objetivo de libertá-las do controle dos traficantes e dos milicianos, se veem ameaçadas pela inépcia do Estado em cumprir as suas obrigações sociais para complementar e consolidar esse programa inovador de segurança pública. Ao relegar tal iniciativa ao segundo plano, o poder público ignorou a necessidade urgente de promover melhorias urbanas e habitacionais nas comunidades pacificadas. Era óbvio que a presença isolada da polícia não seria suficiente para alterar o quadro desolador verificado nesses territórios da cidade. Se não adotarem medidas abrangentes para suprir a falta de infraestrutura urbana em nossas favelas, dificilmente será alcançada a pacificação desejada.

É bom que se diga que os altos índices de criminalidade no Brasil não se devem exclusivamente à presença dos escandalosos contrastes sociais, econômicos e culturais. Devem-se, também, à degradação dos espaços públicos, à falta de policiamento nas ruas, à morosidade da Justiça na aplicação das leis, à certeza da impunidade, às péssimas condições dos presídios e dos abrigos para jovens infratores, ao despreparo da grande maioria dos policiais e à corrupção generalizada que se disseminou por todos os cantos do país. Reverter essa situação é fundamental para evitar que as nossas cidades, com o passar do tempo, incorporem certas mazelas que atualmente se encontram espalhadas pelo planeta. 

Basta abrir o jornal ou assistir ao noticiário pelos meios virtuais de comunicação para constatar que no Brasil se mata desvairadamente, se rouba sem o menor escrúpulo e se mente com a mais absoluta desfaçatez. Reverter esse estado de coisas vem esbarrando na atitude indiferente de uma boa parte da população que parece estar pouco se lixando para o que acontece ao seu redor. Alguns chegam ao cúmulo de reverenciar bandidos, especialmente aqueles que cometem os indefectíveis crimes de colarinho branco.

Em sociedades marcadas por grandes desigualdades, a violência apresenta características, muitas vezes, difíceis de serem compreendidas. Independentemente dessa particularidade, é preciso dizer, em alto e bom tom, que sem segurança dificilmente uma cidade conseguirá prosperar condignamente. Assegurar o convívio pacífico nos espaços públicos, respeitando as leis e os costumes vigentes, vai muito além do imediatismo preconizado por aqueles que julgam ser tudo apenas um caso de polícia.

Na verdade, qualquer modelo de segurança pública só será eficaz se for compreendido, assimilado e compartilhado solidariamente por toda a sociedade. Apesar de algumas críticas feitas ao modo de agir das polícias de Nova York, Barcelona ou Londres, não se pode negar que essas grandes cidades conseguiram acabar, efetivamente, com os graves problemas de segurança que atormentavam a vida cotidiana das suas populações. A presença ostensiva do policiamento nas ruas e a aplicação rigorosa das leis contra delitos de diferentes naturezas trouxeram, de fato, resultados extraordinários para elevar a tranquilidade nos seus espaços urbanos.

Não há a menor dúvida de que os assaltos recorrentes a pedestres e a passageiros de transportes coletivos provocam, além das perdas materiais, inúmeros problemas de ordem comportamental e psicológica. Quando tais ações adquirem um caráter generalizado, elas expõem a incapacidade das autoridades constituídas de fazer valer o ordenamento jurídico, os direitos dos cidadãos e os interesses da própria sociedade.

No Brasil, lamentavelmente, faltam recursos e planejamento integrado para reverter, no curto prazo, o quadro de violência que assola a maioria das nossas cidades. Diante desta situação, despontou o rentável negócio da segurança privada. A participação de policiais nessas empresas particulares gera uma promiscuidade difícil de ser evitada. Nessa circunstância, não faltam exemplos de policiais que agem ao arrepio da lei. Entre os seus desvios de conduta, destaca-se a formação de milícias como a sua mais nítida expressão.

As Unidades de Polícia Pacificadora, implantadas em diversas comunidades do Rio com o objetivo de libertá-las do controle dos traficantes e dos milicianos, se veem ameaçadas pela inépcia do Estado em cumprir as suas obrigações sociais para complementar e consolidar esse programa inovador de segurança pública. Ao relegar tal iniciativa ao segundo plano, o poder público ignorou a necessidade urgente de promover melhorias urbanas e habitacionais nas comunidades pacificadas. Era óbvio que a presença isolada da polícia não seria suficiente para alterar o quadro desolador verificado nesses territórios da cidade. Se não adotarem medidas abrangentes para suprir a falta de infraestrutura urbana em nossas favelas, dificilmente será alcançada a pacificação desejada.

É bom que se diga que os altos índices de criminalidade no Brasil não se devem exclusivamente à presença dos escandalosos contrastes sociais, econômicos e culturais. Devem-se, também, à degradação dos espaços públicos, à falta de policiamento nas ruas, à morosidade da Justiça na aplicação das leis, à certeza da impunidade, às péssimas condições dos presídios e dos abrigos para jovens infratores, ao despreparo da grande maioria dos policiais e à corrupção generalizada que se disseminou por todos os cantos do país. Reverter essa situação é fundamental para evitar que as nossas cidades, com o passar do tempo, incorporem certas mazelas que atualmente se encontram espalhadas pelo planeta.

 

 Luiz Fernando Janot é arquiteto e urbanista lfjanot@superig.com.br


JANOT, Luiz Fernando. Violência Banalizada. O Globo. Rio de Janeiro, p.19. 24 de outubro. 2015   

sábado, 24 de outubro de 2015

SENSÍVEIS À VOZ DIVINA

Por Geovani F. dos Santos

 
 
Todo o crente precisa estar apto a pregar o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. É parte integrante de nossa vocação cristã propagar as boas novas de salvação ao mundo perdido. Se formos obedientes a Deus e sensíveis à voz do Espírito Santo, não deixaremos que nenhuma oportunidade se perca. Pelo contrário, aproveitaremos todas as ocasiões para lançar a bendita semente no solo dos corações.
 
 
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Se esta ou àquela semente irá germinar e produzir frutos, isso é trabalho de Deus. Nós fomos chamados a pregar e confiar na providência divina, permanecendo em tudo, dependentes a sua soberana presciência. O Senhor tem o controle de todas as coisas, pois conhece todos os corações e os seus respectivos desígnios. As Escrituras declaram que o coração humano é perverso e enganoso, mas Deus o esquadrinha (Jr 17.9,10).


Nenhum de nós pode escapar do escrutínio do Eterno, tampouco de seus olhos chamejantes (Ap 2.18).  No entanto, o mestre divino precisa de instrumentos para usar. Homens e mulheres que tenham empatia pelos perdidos e que se sintam constrangidos pelo amor de Cristo (2 Co 5.14), de tal forma, que nenhuma outra motivação encontre razão em suas vidas. Estas pessoas contarão sempre com o auxílio do alto, e estarão completamente abertas à compreensões mais profundas da bondade e do amor de Cristo em seus corações.
 
Os que têm um senso evangelístico em sua alma jamais medirão quaisquer esforços ou distâncias no cumprimento do dever. Estes são àqueles que se lançam na seara dizendo: “Eis-me aqui, envia-me a mim” (Is 6.8). O sentido de suas existências neste mundo está na submissão absoluta e incondicional aos ditames celestiais e, portanto, qualquer outro alvo é considerado secundário. Ganhar a Cristo é o mais importante objetivo; pregar a palavra é o seu maior prazer.
 
Conta-se que Dwight Lyman Moody era um homem com esses predicados. Muitos o consideravam o maior evangelista que já existiu. Pregava para enormes multidões em auditórios abarrotados, onde ocorriam inúmeras decisões para Cristo. Pouco antes de sua morte aos 62 anos de idade em 1899, Moody, dentre tantas outras coisas, inaugurou a Moody Church [isto é, Igreja Moody]. Esta instituição é hoje conhecida mundialmente por Moody Bible Institute [isto é, Instituto Bíblico Moody] em Chicago, Illinois, EUA.
 
 
R. A. Torrey (1856-1928), a quem Moody convidou para dirigir o seu Instituto Bíblico, foi chamado para pregar no culto de ações de graças pela vida de Moody e o tema do sermão era: “Por que Deus usou D .L. Moody?”
 
 
Durante a prédica, Torrey expôs as inúmeras virtudes do seu amigo, dentre elas a “ardente paixão pelas almas”, uma das características marcantes durante toda sua vida e ministério. Nesta oportunidade expos o seguinte exemplo: 
 

“Em uma dada ocasião em Chicago, o senhor Moody viu uma menininha em pé no meio da rua com um balde na mão. Dirigindo-se a ela com brandura, convidou-a para participar da Escola Bíblica Dominical em sua igreja, dizendo-lhe que era um lugar abençoado. A menina lhe prometeu que iria à igreja dele no domingo seguinte, no entanto, não apareceu. Por algumas semanas, o pregador procurou pela infante, até que um dia viu-a de novo à certa distância na rua. Moody caminhou em sua direção, mas ao vê-lo aproximar-se, a menina saiu em desabalada carreira para não encontrá-lo. Ele, porém, seguiu-a e achando-a, pôde conduzi-la aos pés do Salvador. Posteriormente, descobriu que a mãe dela era uma viúva que dantes gozava de grande prestígio na sociedade, mas que empobrecera; e, agora, morava no andar de uma taberna. A pobre mulher tinha muitos filhos, de maneira que Moody conduziu a mãe e toda a família à fé em Jesus. Vários de seus filhos tornaram-se proeminentes membros de sua igreja até se mudarem para outras regiões do país.Tornando-se também membros ativos nestas comunidades.”

O próprio Torrey declarou que aquela menina tornou-se, na época em que ele era ministro da Igreja Moody, esposa de um dos mais eminentes líderes de sua Igreja. Ele prosseguiu dizendo:

“Há uns dois ou três anos atrás, quando me retirava de um centro de venda de bilhetes de viagem em Menphis, Tennesse, um rapaz bem apessoado abordou-me e perguntou: ‘O senhor não é o Doutor Torrey? ’ Eu respondi: ‘Sim, eu mesmo! ’ Ele então me disse que era um dos filhos da pobre viúva, estava trabalhando como representante comercial de uma empresa e que também era líder atuante em sua igreja.”  

Torrey Acrescentou:

"Só a eternidade dirá quantas gerações posteriores foram libertas das trevas e atraídas para o Reino glorioso do filho de Deus!"

 
Este Relato de R. A. Torrey nos emociona. Não deveríamos também trilhar o mesmo caminho de serviço e devoção à causa do Mestre como fez Moody?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TEMPESTADE POÉTICA


 
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Não tenho tempo para lamúrias,

prantos ou melancolias atordoantes.

Não posso me dar ao desplante de,

como todos os mortais, entregar-me

à susceptibilidades.

Se fui chamado de insensível, petrificado

ou destituído de alma,

como tantos outros,

não me importo com tais cantilenas!

Prossigo impertérrito não tencionando

por nenhum louro distintivo

deste mundo, pois busco o tanger das harpas

das regiões etéreas onde minha alma, por fim,

encontrará descanso.

Quão incompreensível é a alma dos poetas!

É um mar de procelas, bravio!

Um abismo de sensações e êxtases.

Se envoltos em delírio deslizam ...

São, assaz, desenvoltos em prosseguir suas canções.      

 

 

O GENERAL


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Existem gigantes no caminho,

tão grandes, assustadores!

Mas não serei abalado em minha fé,

bem junto a mim, eu tenho um guerreiro implacável

que jamais perdeu uma refrega.

Nos fragores da batalha eis a espada,

reluzente como um sol a empunhar.

Segura-a firme e mui disposto,

quem poderá lhe escapar?

Mil valentes já liderou, meu comandante,

em veredas adensadas de angústias;

No entanto, ei-lo firme e impertérrito;

sem receios ou melindres acovardados.

O general garboso se levanta,

lidera os seus soldados

 em compasso.

Avante, avante! Ordena impávido.

Ante o estrépito de lâminas que se tocam.  

 

 

 

 

 

 

 

 

NA CORDA BAMBA

Por Geovani F. dos Santos
 
 
O governo de Dilma Rousseff segue atarantado, envolto no difícil dilema de manter-se no poder à duras penas, sacrificando-se ao máximo em manobras fisiologistas e concessões políticas que aplaquem a voracidade dos seus adversários. No entanto, torna-se evidente que estes malabarismos são apenas uma espécie de paliativo que produz uma ação de alívio momentânea, todavia, não é capaz de resolver o problema em definitivo. Logo após uma aparente melhoria do quadro, os sintomas podem vir acompanhados de mais virulência e de suas consequências imprevisíveis. Enquanto o governo caminha na corda bamba e preocupa-se com as amenidades do poder, ainda não conseguiu demonstrar bom-senso no que tange ao rumo que dará à nau brasileira ou que medidas levarão a combalida economia da pátria novamente ao caminho do crescimento.
 
 
 
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A incapacidade de enxergar o óbvio e a inabilidade de se autogerir em decisões importantes, passam a ideia de que Rousseff é teleguiada por vontades alheias a sua própria vontade, o que, por sua vez, dariam a nítida impressão de sua pusilanimidade política e também de sua incompetência administrativa no lidar com a máquina pública.  Afinal de contas, ela seria considerada um mero fantoche do PT, um verdadeiro títere habilmente manipulado pelo seu antecessor e mentor Lula, que continua a dar pitacos em seu governo, sugerindo-lhe que se faça isso ou aquilo. Se a mandatária seguir as instruções bisonhas do molusco correrá o risco de colocar a corda da forca definitivamente ao seu pescoço e ir para o cadafalso, decretando o seu suicídio político e, com efeito, dando munição para que a oposição deflagre o impeachment.

Lula não aprova as medidas adotadas por Joaquim Levy e até já sugeriu a demissão do ministro alegando que o discurso dele é um discurso de quem “perdeu as eleições ano passado”, “desesperançado”, não vendável e, que, por isso, sua validade já foi vencida. O molusco acredita que o ministro é muito austero em sua forma de atuação e o seu ideário destoa das políticas populistas adotadas pelo PT durante toda a sua trajetória no poder. O ex-presidente não aceita ajustes ou quaisquer mecanismos de controle, fato que caracterizou os anos de seu governo em que se adotou medidas de estímulo de crédito levando a população a gastança e vendendo falsa sensação de que o governo conseguiu retomar a economia.


O economista Rogério Furquim Werneck em artigo de opinião em O Globo de 23/10/2015, escreveu:


Tudo indica, contudo, que a presidente Dilma já percebeu que ter Joaquim Levy à frente do Ministério da Fazenda é um dos poucos fatores que ainda vêm impedindo que ela se afogue de vez. E que, se levar adiante a reorientação de política econômica preconizada por Lula e pelo PT, é difícil que possa sobreviver aos desdobramentos políticos da grave deterioração adicional do quadro econômico que, mais uma vez, ela mesma terá desencadeado.



Pelo visto, e, como se pode depreender do texto acima, Levy ainda é a última tábua de salvação para a presidente Dilma. Com ele em seu governo, apesar de toda a oposição e fogo amigo, ela ainda pode respirar mesmo com alguns atropelos. Ninguém pode declarar quanto tempo durará este casamento e se Dilma conseguirá, mesmo com a ajuda dele, conduzir o Brasil para fora do buraco em que está abeirado. Torçamos pelo melhor! 
 

 

 





 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

IMIGRANTES E RECESSÃO


* Por Leonardo Cavalcanti

 Durante o primeiro quinquênio desta década, período no qual o Brasil tinha uma taxa de crescimento positiva, o país teve um aumento de imigrantes no trabalho formal, especialmente de pessoas do Sul Global (haitianos e senegaleses, entre outros). No período, o número de imigrantes empregados, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), passou de 69.015, em 2010, para 155.982, em 2014, crescimento de 126,01%. No entanto, a atual recessão econômica torna o cenário migratório mais complexo.
Em contextos de crise, o mercado de trabalho passa a ser fundamental para a magnitude e a direção dos fluxos migratórios. Um caso ilustrativo é a experiência da Espanha, o segundo país que mais recebeu estrangeiros na década passada no mundo ocidental, de acordo com os dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), ficando atrás somente dos Estados Unidos. Naquele país, o mercado de trabalho tinha um nicho de atividades que demandava imigrantes em áreas como a da construção, da agricultura e serviços. Com a crise econômica e o desaquecimento do mercado de trabalho, a relação emigração/ imigração começou a apresentar saldo negativo.
No entanto, vincular as migrações, única e exclusivamente, a uma vertente econômica ou ao mercado de trabalho é incorrer em uma limitação teórica e política, pois as migrações não se dão unicamente por uma lógica economicista, no sentido da atração e expulsão (push and pull) como entendia a perspectiva neoclássica das migrações. A atual recessão econômica não implica, necessariamente, que o Brasil deixará de receber imigrantes. Com a desvalorização cambial, as empresas que se situam no final da cadeia produtiva do agronegócio — aquelas que mais empregam imigrantes no sul do país — podem ter as exportações ampliadas e a demanda por esses trabalhadores pode continuar.
Com o aumento da imigração do Sul Global no Brasil e o atual cenário de crise, o país é desafiado a pensar em política migratória e seria um desacerto reduzir os imigrantes a uma simples força de trabalho disponível à reprodução do capital. Como também seria um equívoco desconsiderar a função produtiva e o impacto na economia da população migrante. A junção entre mercado de trabalho e proteção dos direitos dos imigrantes aponta para um caminho mais realista e eficaz na gestão das migrações na atualidade.
O conhecimento rigoroso do fenômeno migratório é o primeiro passo para poder pensar políticas públicas adequadas. Por isso, os pesquisadores do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) apresentaram à sociedade, na Câmara dos Deputados, os dados sobre a presença dos imigrantes no Brasil. O momento é oportuno, já que o Parlamento discute um novo marco legal para as migrações no Brasil.
Leonardo Cavalcanti é professor da Universidade de Brasília e coordenador do Observatório das Migrações Internacionais
 
 
CAVALCANTI, Leonardo. Imigrantes e recessão. O Globo, Rio de Janeiro, 23 out. 2001, Opinião, p. 14..
 
 
 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

BRASAS NA FOGUEIRA

Por Geovani F. Santos


Quando se olha para o cenário político brasileiro o que nos vêm à mente num primeiro momento é vergonha. Este vocábulo encerra todas as angústias que revoluteiam a alma de milhões de compatriotas que simplesmente não aguentam mais com a tamanha desfaçatez e a roubalheira que tomaram conta do cenário cotidiano nacional. A reboque de todas estas lamentáveis situações, ainda temos que aguentar o jogo de empurra que envolve a signatária brasileira, Dilma Rousseff e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.  A presidente luta com todas as suas armas para impedir que Cunha, aproveitando-se dos seus poderes constitucionais, saque contra ela o tão temível passaporte para Disneylândia, ou, diga-se de passagem, o impeachment. Para tanto, costura de todos os lados acordos com políticos ligados a Cunha, para que estes sirvam de interlocutores entre o planalto e o famigerado deputado.
 
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A troca de farpas é notória entre os dois lados e a retórica pesada de ambas as partes é um indicador de que o incêndio ainda não foi debelado e, portanto, os assessores da presidente ainda terão muito pano para manga nos dias porvir. Pediu-se a presidente que diminuísse o tom das suas palavras. O momento é de se buscar o consenso através do diálogo e não de se colocar mais combustível ao fogo. Pelo visto, essa novela acabará com um acordo de conivências em que um se proporá em não remexer a lama do outro. É melhor deixar quieto, porque se mexer demais vai feder.

 A velha política brasileira “do tudo acabar em pizza” ainda é uma realidade que nos atordoa e faz parte dos artifícios engendrados pelos fantásticos prestidigitadores que dizem nos representar. Os bônus sempre ficam com eles, enquanto os ônus dos seus desmandos acabam sempre sobrando para o bolso do contribuinte, que apesar de pagar as suas contas em dia, sofre por não ver os seus impostos revertidos para o bem da população. Isso porque fazer política no Brasil é apenas uma cortina de fumaça, uma espécie de trampolim em que o sujeito entra pobre, em alguns casos, e depois de algum tempo, passa a exibir um patrimônio que em se trabalhando jamais seria conquistado.

A vida política, portanto, concede riquezas nababescas aos seus figurões, cuja única meta é se dar bem nas costas daqueles que os elegeram, e nada mais. Enquanto isso, a miséria solapa os lares de milhões brasileiros que dependem de uma “bolsa família” assistencialista que não dá para comprar quase nada e, que, só serve para que o governo se promova com as suas propagandas mirabolantes e mentirosas de que está extinguindo a fome dos menos favorecidos. A realidade, todavia, prova o contrário.  

A verdade é que o mundo político segue anestesiado diante da realidade nacional, como se vivesse num universo à parte. Seria muita ingenuidade de nossa parte dizermos que eles não enxergam a verdade, porque isso não seria sensato.  Eles sabem bem o que estão fazendo e não são simplórios no que tange à bancarrota em que vive a economia do país. Mas, certas coisas são ignoradas em nome de interesses partidários e fisiologismo escancarado. Existe um certo jogo de interesses e, tais interesses são mais importantes do que o estado da nação. Em 2005, o então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE) teve o seu mandato cassado quando se descobriu que ele recebia um tal “mensalinho” de R$ de 10 mil reais de um dono de restaurante que servia ao Congresso. No entanto, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) é acusado de ter contas milionárias na Suíça e, mesmo assim, prossegue no cargo inatingível.  Em editorial, o jornal O Globo de 21/10/2015 declara que a “oposição e a base fragmentada da situação se posicionam na questão Cunha de forma oportunista, para faturar dividendos”.  Vejam só, em vez de buscarem soluções conjuntas para restaurarem o equilíbrio econômico nacional e colocar o Brasil novamente nos trilhos do desenvolvimento, adotam medidas corporativas tendo em vista tirar alguma vantagem da situação. O PT o faz na esperança de que Cunha não deflagre o processo de impeachment contra a presidente Dilma; mas, por outro lado, a oposição torce para que Cunha vá adiante e dê sua última cartada contra o já combalido governo. É esperar para ver.